Por Michael Oliveira Santos*, Rafael Nascimento de Castro** e Thiago Casemiro Mendes***

Este texto é um fichamento do artigo intitulado “Pesquisa-ação: uma metodologia do ‘conhecer’ e do ‘agir’ coletivo”, publicado em 2001, na revista Sociedade em debates. O artigo é de autoria de Adelina Baldissera, Professora e Pesquisadora da Escola de Serviço Social da Universidade Católica de Pelotas, Assistente Social e Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco.

Na pesquisa desenvolvida, a autora aponta que alguns defensores do método de pesquisa-ação limitam-se a concepção de uma orientação da prática junto a grupos sociais que pertençam às classes sociais populares, sendo a pesquisa-ação vista como uma forma de comprometimento sócio-político.

Contudo, como bem propõe Baldissera (2001), a pesquisa-ação vai além em suas implicações:

Uma pesquisa pode ser qualificada de pesquisa-ação quando houver realmente uma ação por parte das pessoas implicadas no processo investigativo, visto partir de um projeto de ação social ou da solução de problemas coletivos e estar centrada no agir participativo e na ideologia de ação coletiva (p. 6).

Ao utilizarmos a proposta metodológica da pesquisa-ação, é possível usufruirmos da possibilidade de produzir conhecimentos e ampliar o olhar sobre as informações de um coletivo. Existe uma estreita relação entre pesquisa e prática nessa metodologia, uma vez que envolve conhecimento teórico e ao mesmo tempo a participação dos envolvidos.

Outro ponto que a autora ressalta é que este método de pesquisa não se limita em uma única forma de ação, sendo uma metodologia que viabiliza a inserção do pesquisador em determinada realidade social, podendo ele fazer parte desse real, com a finalidade de coletar e interpretar dados. Nesse sentido, o pesquisador modifica o contexto coletivo e as relações, tendo em vista uma prática participativa e interventiva com o objetivo de transformação social.

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Photo by Becca Tapert on Unsplash

A pesquisa-ação é uma ferramenta de auto-reflexão coletiva unificada, em rede, que pode ser definida como um processo, onde cada etapa é característica do direcionamento do pesquisador/interventor. Possui como objetivo fazer que os participantes de um grupo social busquem melhorar o seu próprio funcionamento, através de intervenções participativas dos membros e pesquisadores, colaborando para ampliar as estratégias de ação, visando conhecer a situação social.

Essa ferramenta de pesquisa pode ser entendida como determinada no tempo, sendo um processo, que passa por diferentes etapas, onde todas elas se fundamentam na presença do diálogo.  As fases são operacionalizadas pelo pesquisador/interventor com o uso de técnicas e instrumentos, dessa maneira, a fase inicial é instituída por meio da  observação e coleta de dados de caráter investigativo que busca compreender os problemas dos grupos, após essa primeira fase o estudo avança para o planejamento de referencial teórico, utilizando as informações coletadas no momento inicial para levar hipóteses junto ao grupo e por fim o momento de reflexão da realidade grupal e devolutiva de dados, coletados durante o processo investigativo com o objetivo de resolução dos problemas.

Dessa forma, o pesquisador/interventor assume uma postura de agente de mudança no grupo, por meio de apontamentos pedagógicos, visando à evolução coletiva. Contudo, essas etapas não devem ser compreendidas como um livro de receitas, mas sempre como  um projeto de prática social em constante construção.

Nessa perspectiva, segundo Thiollent, citado por Baldissera (2001), “é necessário definir com precisão, qual ação, quais agentes, seus objetivos e obstáculos, qual exigência de conhecimento a ser produzido em função dos problemas encontrados na ação ou entre os atores de situação” (p.6).

A implicação da pesquisa-ação latino americana provém das ciências sociais e foi introduzida no Brasil no campo educacional. De acordo com Bosco, citado por Baldissera (2001), existem algumas implicações na proposta da pesquisa-ação, sendo elas: “Acesso ao conhecimento técnico-científico, que possibilite a participação e o ‘desvelamento’ da realidade; o incentivo a criatividade, a fim de gerar novas formas de participação e; a organização da base em grupos, no qual eles sejam sujeito/agente de transformação” (p.7).

De acordo  com Egg, citado por Baldissera (2001), existem algumas características na investigação/ação/participativa, sendo elas:

“a finalidade da investigação é a transformação da realidade que afeta as pessoas envolvidas”; “existe uma estreita interação/combinação entre a investigação e a prática, entre o processo de investigação e da ação interativa”; “exige formas de comunicação entre iguais”; “é uma ferramenta intelectual a serviços da população” e “é uma proposta metodológica na perspectiva de transferir conhecimentos e habilidades” (p.9)

O método de pesquisa diz de um distanciamento do suporte teórico e metodológico em relação às pessoas envolvidas que contribuem com o conhecimento e experiência da sua própria realidade. Ou seja, o pesquisador não deve ter a postura de “expert” diante do seu objeto de estudo, mas adotar uma conduta cooperativa para investigar os conhecimentos e experiências das pessoas inseridas no contexto em que se deseja transformar.

Segundo Baldissera (2001), o conhecer e o agir como método de conhecimento da realidade social tem se ancorado em várias matrizes teóricas, uma vez que, sua principal característica, é a intervenção na comunidade ou em grupo específico, utilizando da ação educativa para chegar a esse fim. Portanto, tornar-se consciente dos problemas e potencialidades com os envolvidos no processo de pesquisa/intervenção não é tarefa fácil, exigindo do pesquisador um manejo sensível para toda comunidade participante, tanto nos aspectos objetivos, quanto subjetivos.

Por fim, o agir e o conhecer, como dois movimentos próximos, objetivam-se transformar e conscientizar a realidade social a partir de um olhar humanizado e amparado pelo conhecimento científico.

Referências

BALDISERRA, Adelina. Pesquisa-Ação: uma metodologia do conhecer e do agir coletivo. Sociedade em Debate, Pelotas, 7(2):5-25, Agosto, 2001. Disponível em http://www.rle.ucpel.tche.br/index.php/rsd/article/view/570/510

* Michael Santos é graduando em Psicologia na PUC Minas e bolsista de iniciação científica do grupo de pesquisa Psicologia, Trabalho e Processos Psicossociais. 

** Rafael Castro é bolsista de mestrado do grupo de pesquisa Psicologia, Trabalho e Processos Psicossociais, Especialista de Gestão de pessoas e Psicólogo pela PUC Minas.

*** Thiago Mendes é bolsista de mestrado do grupo de pesquisa Psicologia, Trabalho e Processos Psicossociais, Especialista de Gestão de pessoas pela PUC Minas e Administrador pela FANS.

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