Há alguns anos, fui convidado a conduzir uma atividade em grupo com o tema “Mulher, trabalho, família e sobrecarga” em uma instituição aqui em Belo Horizonte. Confesso que, a primeira coisa que me veio à mente foi “eu não sei nada sobre isso” e, logo, pensei duas vezes antes de aceitar a missão. Porém, passado o susto, topei o desafio e procurei humildemente ler um pouco mais sobre o assunto e concluí que talvez soubesse mais sobre isso do que imaginava.

Ainda hoje, discussões que envolvem a relação entre mulheres e o mundo do trabalho, cativam o meu interesse. Isso ocorre por alguns motivos, tais como:

  1. De minha realidade pessoal e familiar, praticamente todas as mulheres – mãe, esposa, tias e primas – trabalham fora de casa, em empregos formais ou informais. A maioria, inclusive, trabalha desde que se entende por gente.
  2. Em meu ambiente de trabalho, me vejo em uma equipe de quinze pessoas, sendo eu e dois colegas os únicos homens, convivendo com doze mulheres.
  3. Todas que conheço não apenas trabalham durante o dia, mas administram as tarefas do lar, os filhos, o marido, as contas, o supermercado, dentre outras atribuições.
  4. Na faculdade de Psicologia, me recordo, não foi diferente. Muitas mulheres, poucos homens.

Sim, elas estão por aí e chegaram para valer no mundo do trabalho. Entretanto, como dizem por aí, “algo errado não está certo”.

Afinal, se as mulheres estão cada vez mais presentes nos mais diversos setores da economia, porque a sua rotina doméstica parece não se alterar? E, ainda, porque elas seguem ganhando salários menores em relação aos pagos a homens nas mesmas funções? E, por fim, porque os trabalhos realizados pelas mulheres – dentro e fora de casa – parecem adquirir, ainda, certo grau de invisibilidade e desvalorização monetária e social?

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Pesquisas recentes mostram que, se em 1970 apenas 18% das mulheres brasileiras trabalhavam, em 2007 já alcançávamos a marca de 52,4%, ou seja, mais da metade delas. Hoje, devemos observar um percentual ainda maior. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram como a desigualdade entre os gêneros ainda se perpetua em nossa sociedade.

É fácil dizer que, se mais da metade de nossas mulheres hoje trabalham, é possível observar que grande parte delas não abandonou seus papéis tradicionais em nossa cultura – mãe, dona de casa, etc. -, pelo contrário, nossas novas mulheres trabalham em jornada dupla.

Devido a uma série de fatores históricos, foram atribuídas às mulheres as chamadas “responsabilidades domésticas” e, em algumas culturas, isso mudou pouco ou quase nada. Ainda hoje, muitas representantes do sexo feminino são involuntariamente relegadas ao cuidado com o lar e dos filhos. Optar por isso, é uma coisa. Não ter opção, é outra.

Pode-se dizer que, historicamente, a naturalização de características biológicas e de papéis socialmente construídos metamorfoseou o que era apenas uma diferença biológica, por exemplo, em desigualdades de ingresso em funções políticas, econômicas e sociais, fenômeno nomeado, por algumas autoras, como ‘divisão sexual do trabalho’ (HIRATA, 2001).

Frases tristemente machistas como “lugar de mulher é na beira do fogão” ainda ressoam por aí e dão, ao trabalho doméstico, assim como à mulher, um valor reduzido, restrito ou quase inexistente – algo que não corresponde à minha criação familiar, por exemplo, onde tarefas domésticas sempre foram atribuições de todos, independente do gênero, algo que se refletiu em minha vida adulta.

Infelizmente, ainda é comum encontrarmos pessoas que acreditam que obrigações familiares como cuidar de crianças menores, idosos, cozinhar, limpar a casa e fazer os demais trabalhos domésticos, além de tarefas pouco valorizadas, são atividades tipicamente femininas. Mas, isso não faz sentido algum. Você homem, por acaso, já se imaginou cuidando de todas as tarefas do lar? E, além disso, trabalhando fora de casa, comparecendo a reuniões de trabalho, compromissos na escola dos filhos, em consultas médicas, e tudo mais o que vier? Como diria Vinícius de Moraes, ao se corresponder com Tom Jobim, “é fogo, maestro”.

A inserção da mulher em um espaço que por muito tempo foi dominado pelos homens, fez com que as mulheres assumissem, aos poucos, tanto o trabalho fora de casa como as tarefas domésticas, vivendo uma dupla jornada de trabalho. Entretanto, sua saúde mental e a sua qualidade de vida, parecem ter ficado perdidas nesse meio tempo e o lema não é viver, mas sim sobreviver.

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Sabemos que as mulheres não querem apenas ser mães e cuidadoras do lar – o que, por muito tempo, se apresentou como única opção de vida. Querem também sua independência, seu poder de consumo e sua realização profissional. Além disso, muitas trabalham para complementar o sustento do lar e essa história de que o homem é o provedor da casa já está ultrapassada há bastante tempo.

No entanto, ao mesmo tempo em que nossa sociedade estimula o papel da mulher forte e independente, assim como sua igualdade de direitos, também lhes cobra seu dever de cuidado com os filhos e suas obrigações domésticas, trazendo assim uma demanda injusta e um tanto contraditória.

“Você pode trabalhar fora, mas não esqueça dos seus filhos” diz o marido.

A esposa, surpresa, responde: – Seus? Não seriam ‘os nossos’?

“E a divisão de tarefas do casal?”, você deve estar se perguntando ainda. “Que homem egoísta e folgado” pensou outra leitora mais alerta. O homem não deveria ajudar mais? Claro. Aliás, o termo “ajudar” se mostra impreciso, afinal, ao dizermos ‘ajuda’, estamos mais uma vez afirmando que a responsabilidade doméstica é da mulher, o homem só ajuda. Nada disso. Serviço doméstico é de todos. “Dividir as obrigações” seria mais correto.

Entretanto, pesquisas apontam claramente a diferença da dedicação feminina e masculina às tarefas domésticas. Afinal, as mulheres dedicam, em média, 18 horas semanais a cuidados de pessoas ou afazeres domésticos, um total de horas 73% maior do que os homens, que é de 10,5 horas.

Como dar conta de tudo? Percebo que, além dos demais fatores envolvidos em um processo de adoecimento no trabalho, como a organização do trabalho, a competitividade, a pressão e o estresse mental ou físico, questões relacionadas à identidade e ao seu papel na sociedade impactam especialmente as mulheres.

Parece não haver um roteiro pronto. Como afirmam França e Schimanski (2009), o trabalho é uma das maiores conquistas femininas e que, além de ser uma atividade emancipadora, garante a construção individual de um espaço no qual se sentem valorizadas como pessoas.

Se guardamos um espaço dedicado à análise da relação entre saúde mental e trabalho, devemos cultivar uma discussão sobre a saúde da mulher no trabalho e estudar suas particularidades, enfrentando preconceitos e revisando papéis há muito estabelecidos, porém esquecidos e naturalizados. Afinal, todos nós temos novos papéis em uma sociedade que muda cada vez mais rápido a cada dia.

Deixo algumas indicações de leitura:

  • BRUSCHINI, Maria Cristina Aranha. Trabalho e gênero no Brasil nos últimos dez anos. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, p. 537-572, set./dez. 2007.
  • HIRATA, Helena. Globalização e divisão sexual do trabalho. Cadernos Pagu, 18(2), 139-156, 2001.
  • HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, 37(132), 595-609, 2007.

Referências

FRANÇA, Ana L. de; SCHIMANSKI, Édina. Emancipação, Ponta Grossa, 9(1): 65-78, 2009. Disponível em http://www.uepg.br/emancipacao

FUNDAÇÃO CARLOS CHAGAS. Mulheres, trabalho e família. Disponível em http://www.fcc.org.br Acesso em 24 de Março de 2015.

Organização Internacional do Trabalho – OIT. Perfil do Trabalho Decente no Brasil: um olhar sobre as Unidades da Federação. Disponível em http://www.oitbrasil.org.br/node/880 Acesso em 24 de Março de 2015.

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