Por Michael Oliveira Santos*Rafael Nascimento de Castro** e Thiago Casemiro Mendes***

Nesse texto vamos apresentar os principais pontos do artigo “A devolutiva como exercício ético-político do pesquisar” publicado em 2018 na Revista de Psicologia Fractal e escrito pelos autores Ueberson Ribeiro Almeida; Janaína Mariano César; Luzimar Dos Santos Luciano; Pedro Henrique Carvalho, pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo.

O artigo busca situar dilemas e impasses éticos do processo de devolutiva, fazendo o movimento de integrar o exercício da devolutiva com a produção do conhecimento por meio da pesquisa-intervenção.

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A pesquisa-intervenção foi formulada pela Análise Institucional Socioanalítica, desenvolvida na França durante as décadas de 60 e 70 (LOURAU, 2004). Almeida, et al. (2018) sinaliza que a devolutiva é um processo que demanda ao pesquisador não somente a junção dos dados coletados, mas um constante repensar do lugar do pesquisador em relação ao pesquisado.

O pesquisador ao entrar na comunidade tem o desafio de conhecer sobre o contexto pesquisado, mas também enfatizar a importância da relação pesquisador-pesquisado. Onde ambos no processo de pesquisa cooperam entre si para a construção da realidade durante o percurso de investigação, uma vez que pesquisador-pesquisado são pontos em rede conectados com objetivo em comum de conhecimento e transformação da própria realidade.

Dessa forma se faz necessário uma postura ético-política que busque transformar/romper a concepção de produção de conhecimento como sendo meramente a ação do pesquisador sobre um objeto. Conforme destacam Almeida et al. (2018):

“Há, no modo tradicional de conceber a devolutiva, a ideia de que os pesquisadores, por ocuparem um lugar do saber científico, verdadeiro (acadêmico), são os responsáveis por elaborar os conceitos e as prescrições que deverão “voltar” ao mundo vivido para orientar e conduzir uma existência “ideal” dos grupos pesquisados” (ALMEIDA et al. 2018, p. 205).

Sendo assim, se faz necessário romper com o paradigma tradicional de entendimento sobre a devolutiva na pesquisa, onde o saber não tenha a função de dominação, deve-se ampliar ao paradigma contemporâneo onde o pesquisador-interventor constrói a realidade junto ao pesquisado, em uma via de mão dupla.

Entende-se que uma pesquisa-intervenção está sempre a fazer devolutiva, frequentemente retornando informações e em contínuo movimento, por preocupar-se com a análise dos processos que fazem a pesquisa, não desconsiderando que todos nós, pesquisadores e pesquisados, estamos sendo inventados e transformados nesse processo (ALMEIDA, et al. 2018).

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A perspectiva de relações dicotômicas estabelecidas quando o conhecimento/saber é utilizado como “poder”, pode refletir negativamente nas relações entre professor/aluno, professor/pesquisador, gestor/trabalhador. Esse modelo de fazer pesquisa, aponta o desmantelamento de posições contrárias ao que Almeida et al. (2018) busca discutir no texto.

Dessa forma, o exercício da devolutiva na perspectiva ético-política vai além de uma devolução dos dados finais de uma investigação, busca-se pensar o lugar do pesquisador na pesquisa, sendo necessário produzir descolamentos do pesquisador/interventor.

Deve-se então, olhar o exercício de devolutiva como um processo de produção de conhecimento que envolve não somente o pesquisador, mas também o contexto pesquisado, pois a realidade em que o pesquisador se propõe a pesquisar/conhecer, encontra-se em constante transformação, sendo necessário reinventar as práticas em pesquisas de maneira continuada.

Referências:

ALMEIDA, Ueberson Ribeiro; CESAR, Janaína Mariano; LUCIANO, Luzimar dos Santos e CARVALHO, Pedro Henrique. A devolutiva como exercício ético-político do pesquisar. Fractal, Rev. Psicol. [conectados]. 2018, vol.30, n.2, pp.204-213. ISSN 1984-0292. http://dx.doi.org/10.22409/1984-0292/v30i2/5527.

* Michael Santos é graduando em Psicologia na PUC Minas e bolsista de iniciação científica do grupo de pesquisa Psicologia, Trabalho e Processos Psicossociais. 

** Rafael Castro é bolsista de mestrado do grupo de pesquisa Psicologia, Trabalho e Processos Psicossociais, Especialista de Gestão de pessoas e Psicólogo pela PUC Minas.

*** Thiago Mendes é bolsista de mestrado do grupo de pesquisa Psicologia, Trabalho e Processos Psicossociais, Especialista de Gestão de pessoas pela PUC Minas e Administrador pela FANS.