Por Mariana Cabral Valente e Silva* e Rebecca Magalhães Monteiro**

Esse texto se trata de um fichamento do artigo intitulado “Avaliação Psicológica no Brasil: fundamentos, situação atual e direções para o futuro” do autor Ricardo Primi, psicólogo formado pela PUC Campinas, mestre e doutor em avaliação psicológica pela Universidade São Francisco (USF), foi  presidente do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP) e membro da Comissão Consultiva em Avaliação Psicológica do Conselho federal de Psicologia.

De acordo com o autor, a avaliação psicológica, não somente a construção de testes psicométricos, mas a avaliação como eixo central da psicologia como ciência, é fundamental para a “objetivação e operacionalização das teorias psicológicas” (PRIMI, 2010 p. 25). Desta forma, os instrumentos são produto de um processo de testes de hipóteses teóricas que se espelha no processo de formulação teórica, sustentando a ciência psicológica.

Muitas vezes, o processo de avaliação psicológica é confundido com o ato da testagem psicológica, que em situações de avaliação e recrutamento e seleção, dentro de organizações, se apresenta como tema controverso e passível de críticas. Entretanto, é importante ressaltar essa diferenciação entre as duas técnicas para que as críticas sejam direcionadas ao contexto correto e não de forma generalizada à avaliação psicológica.

Ao longo desse texto, serão discutidas abordagens e modelos de avaliação e sua importância para a compreensão do sujeito de forma ética e científica, validando a posição do psicólogo e o uso de instrumentos no âmbito organizacional, e ressaltando a necessidade de formação e conhecimentos adequados para que seja possível atuar de forma correta nesse espaço.

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Primi (2010) defende a importância da construção dos instrumentos na validação científica da psicologia bem como o seu desenvolvimento enquanto ciência, uma vez que, através deles, é possível observar objetivamente conceitos teóricos, utilizando metodologias científicas com delineamento adequado e modelos matemáticos (como a Teoria de Resposta ao Item) para sua validação. Entretanto, é preciso ressaltar que os instrumentos por si só não constituem um processo de avaliação psicológica.

Com o objetivo de auxílio e possível orientação, a avaliação busca conhecer o sujeito em seu funcionamento e particularidades. Já os instrumentos se apresentam como fonte de informações e podem estar inseridos no processo de avaliação psicológica. Além disso, é importante compreender os estilos nomotético e idiográfico que pautam a lógica na qual a avaliação ocorrerá. O primeiro, de tradição psicométrica, trata da busca de leis gerais, da comparação do indivíduo com um grupo de referência; a segunda, de tradição clínica, busca a compreensão do indivíduo por si só e o conjunto das variáveis consideradas.

Para melhor ilustrar os dois estilos citados acima, vale considerar a construção das baterias de personalidade baseadas inicialmente na observação e sistematização dos comportamentos humanos para em seguida serem estruturadas em baterias e escalas. (CATTELL apud PRIMI, 2010). Sendo assim, por meio de uma abordagem mais psicométrica (ou nomotética) busca-se semelhanças e correlações entre as variáveis observadas para formular um conceito, extraindo as dimensões da personalidade uma de cada vez para que seja possível sua estruturação em traços.

Em contrapartida, o modelo de origem clínica (ou idiográfica) considera concomitantemente todas as variáveis intraindividuais e suas formas de interação, formulando e compreendendo a configuração individual e única do sujeito que está sendo avaliado. A abordagem ideográfica reconhece predominâncias gerais, como por exemplo a comorbidade entre ansiedade e depressão, mas não abrange todos os casos, em sujeitos que são apenas ansiosos. A preferência radical por qualquer das abordagens é capaz de criar pontos cegos na avaliação que possivelmente prejudicarão o sujeito, ao invés de o considerar em sua complementariedade.

Assumir a abordagem ideográfica como lei geral e universal pode blindar o profissional de observar particularidades, enquanto que, ignorar os estudos existentes significa desconsiderar um importante guia para a clínica, capaz de auxiliar o profissional na formulação e teste de hipóteses no decorrer do processo avaliativo. Tavares (apud PRIMI, 2010) argumenta que, é necessário a adaptação das interpretações nomotéticas para o caso de forma contextualizada para se compreender o indivíduo, e define tal processo como “validade clínica”.

Tendo em vista as considerações acima, o autor ressalta as críticas feitas ao uso de instrumentos e a utilização da mensuração, através de uma “generalização acrítica” originada no mau uso de alguns profissionais. Desconsiderar sua validade e importância com base nessa generalização, gera a perda de instrumentos e delineamentos teóricos capazes de fundamentar intervenções sociais e sustentar argumentos perante organizações.

Historicamente, houve um crescimento considerável na área de avaliação psicológica no Brasil, marcado por eventos da área, encontros regionais e nacionais, pela fundação do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológico (IBAP) e pelo aumento considerável de publicações na área. Nesse percurso histórico de desenvolvimento, destaca-se a criação do Sistema de Avaliação dos Testes Psicológicos (SATEPSI) em 2001, sistema responsável por certificar os instrumentos apropriados para uso profissional e assegurando sua qualidade através de padrões internacionais, uma forma de responder e atender às questões éticas relacionadas ao uso indiscriminado, inadequado e impróprio dos instrumentos de avaliação psicológica.

Para perspectivas futuras, a tecnologia desempenha um papel fundamental na atualização dos métodos de aplicação para utilização via dispositivos eletrônicos, correções automatizadas, bem como a possibilidade de testes. A utilização do modelo de Teoria de Resposta ao Item pode embasar testes adaptativos computadorizados o que aumenta a precisão e reduz o tempo de aplicação do instrumento. Com relação aos métodos projetivos, sugere-se que é necessária a utilização de análises psicométricas diferenciadas e mais avançadas que proporcione um bom desenvolvimento da técnica.

No intuito de avaliar as consequências sociais da testagem, aponta-se a validade consequencial que busca compreender de fato quais os efeitos a avaliação realmente proporcionou para os objetivos para qual foi empregada. Ressalta-se a necessidade de uma formação profissional sólida e de qualidade uma vez que a área exige competências e conhecimentos ligados à matemática, estatística e metodologia de pesquisa, capacidade de agregação tecnológica crítica.

Devido à essa busca da qualidade profissional na área de avaliação psicológica, foi feito uma solicitação ao Conselho Federal de Psicologia, para que a área se torne uma especialidade com o intuito de trazer o reconhecimento necessário ao campo de conhecimento, reforçando assim suas particularidades e especificidades com a esperança de fomentar cursos e atividades de formação direcionadas para a área. Vale ressaltar aqui que nove anos depois da publicação deste artigo, houve a formalização da Avaliação Psicológica como especialidade, através da resolução CFP nº 18/2019.

Referências

PRIMI, Ricardo. Avaliação psicológica no Brasil: fundamentos, situação atual e direções para o futuro. Psicologia: teoria e pesquisa, v. 26, n. 25ANOS, p. 25-36, 2010.

* Mariana Cabral é graduanda no curso de Psicologia da PUC Minas, bolsista de iniciação científica do grupo de pesquisa Psicologia, Trabalho e Processos Psicossociais e estagiária de pesquisa e desenvolvimento na Mapa Avaliações

** Rebecca Monteiro é psicóloga pela PUC Minas, mestre e doutora em Avaliação Psicológica pela Universidade São Francisco. É professora na PUC Minas e Coordenadora do LEPAP (Laboratório de Estudos e Pesquisa em Avaliação Psicológica PUC Minas/Coração Eucarístico)