O homem não se manifesta somente pelo que faz, mas, às vezes e em certas circunstâncias, sobretudo pelo que deixa de fazer (Yves Clot)

Não, o título não fala do trabalho que deixamos de fazer, da procrastinação ou da enrolação para entregarmos tarefas que não terminamos. Talvez isso seja assunto para outro dia. Por enquanto, vamos além.

Há alguns anos, passei por uma experiência interessante. Sabe quando só percebemos a importância de alguma coisa muito tempo depois de a termos conhecido? Calma, sem romance. Não estou falando de uma pessoa, mas sim de um conceito.

Me lembro que, durante a universidade, ao estudar autores da Psicologia do Trabalho, li textos de um cara francês chamado Yves Clot. Ele era autor de um livro com uma capa fenomenal, toda branca, com uma formiga carregando uma folhinha, chamado “A função psicológica do trabalho” (Editora Vozes, 2006).

Naquele momento, optei por me interessar mais por Christophe Dejours, outro francês, autor de um livro igualmente legal, chamado “A loucura do trabalho” (Cortez Editora, 1992), e não dei a devida importância ao primeiro.

Bom, acontece que aquele primeiro francês tinha uma ideia que, mais tarde, se tornaria indispensável para mim: o trabalho que não fazemos, ou melhor, a atividade impedida.

Atividade realizada e real da atividade

Assim como as outras perspectivas clínicas do trabalho, a Clínica da Atividade se utiliza da distinção trazida com a Ergonomia entre o trabalho prescrito – aquilo que deve ser feito, ou seja, as normas – e o trabalho real – o que de fato se faz, na prática. Contudo, atividade não é só o que podemos descrever ou observar, mas também aquilo que foi suspenso ou impedido. Sendo assim, Yves Clot vai além da oposição entre o prescrito e o real.

Para o autor, o que se pode ver é apenas uma parte da atividade, ou seja, a atividade realizada, uma forma de agir escolhida por diversos motivos e que inibe outras maneiras possíveis. A parcela da atividade que é ocultada, silenciada e impedida continua a exercer influência sobre o trabalhador e sobre a atividade. Para Lima (2007), o real da atividade “consiste no que não se pode fazer, no que se gostaria de fazer, no que poderia ter sido feito e mesmo no que se faz para não fazer aquilo que deve ser feito” (p.100).

Dessa forma, temos basicamente três registros para compreender e intervir sobre a atividade: o prescrito, o que ocorre na prática – atividade realizada – e a dimensão suspensa – real da atividade -, mas que não deixa de existir.

O trabalho bem feito

Quando começamos a nos sentir distantes de nossa atividade? Quando não mais nos identificamos com ela ou sabemos definir se está sendo bem feita ou não?

Bom, no meu caso, me lembro de algumas vezes me sentir feliz ao perceber que estou entregando um bom trabalho. Quando isso acontece, percebo que estou utilizando minhas capacidades, direcionando minha energia e inteligência para algo útil, que considero de boa qualidade e que, satisfatoriamente, vejo reconhecido por meus colegas. Consigo me enxergar na minha criação e me sentir orgulhoso.

Além disso, consigo discutir a sua qualidade, pensar sobre uma melhor forma de executá-lo e reinventá-lo. Entretanto, como disse, isso ocorre com alguma frequência e não sempre. Dificilmente, nos dias de hoje, os sentimentos de orgulho e identificação com o próprio trabalho se mostram como uma regra. Na verdade, mostram-se como uma alarmante exceção.

Para Yves Clot (2006), psicólogo e principal representante da Clínica da Atividade, ao trabalharmos, trabalhamos para nós mesmos, para o objeto que direcionamos nossa atividade e para os outros (Bendassolli, 2011), afinal, nos desenvolvemos psicologicamente por meio do trabalho. Trata-se de uma atividade triplamente dirigida.

No entanto, no entendimento de Clot (2006), atividade não é apenas o que é feito, mas também o que ainda não foi feito, como dissemos anteriormente. Para o autor, “o sonho é parte da atividade. Inclui o que eu fiz e o que eu não fiz” (p. 105) e, o que nos faz sofrer e nos adoece no trabalho, é a atividade impedida, ou seja, o fato do sujeito desejar trabalhar mas não poder.

Mas não se engane. ‘Não poder’ não é estar desempregado. É algo mais. O que podemos chamar de trabalho bloqueado, que impossibilita um livre conflito do indivíduo e do seu coletivo com o objeto do seu trabalho, com os riscos, desafios e demandas. Quando isso ocorre, o sujeito é desprovido do objeto em que investir sua energia vital, se esvaziando, sendo privado do seu poder de agir.

A atividade impedida

Para Bendassolli (2011), a atividade torna-se impedida por algumas razões. Em primeiro lugar, há uma perda de significado, geralmente motivada pela impossibilidade de discutir os critérios de qualidade do trabalho. Isso ocorre quando apenas realizamos atividades prescritas pela organização, sem discussão, por obrigação, tornando-as assim atividades vazias. Não nos reconhecemos nelas.

Em segundo lugar, quando a organização não oferece recursos para realizarmos a atividade conforme nosso desejo ou, pior, atrapalha a realização da atividade. Isso ocorre quando, por exemplo, a empresa estabelece critérios inconciliáveis de desempenho com a nossa expectativa ou ainda quando desfragmenta os coletivos, isolando e impedindo o diálogo entre profissionais do mesmo gênero.

Retomando minha percepção tardia sobre a importância do que diz Yves Clot, não consigo mais enxergar qualquer realidade de trabalho sem me questionar as infinitas possibilidades e impossibilidades contidas em qualquer atividade. Outro dia, minha médica ilustrou brilhantemente o caminho percorrido entre uma ideia ainda no campo do sonho e do desejo, até que chegue a se tornar realidade.

Ao buscar um punhado de areia do fundo do mar, tente trazê-lo até a superfície e perceberá que muitos grãos escaparão de sua mão. E, por mais cuidadoso que seja, quando aquele punho cerrado alcançar o ar e vencer o limite das águas, restará apenas uma parte da areia que inicialmente estava guardada em sua mão e muito se terá perdido.

É mais ou menos como enxergo nosso trabalho, um constante confronto com a realidade, cheio de sonhos, frustrações e discrepâncias, entre o que um dia se imaginou e o que efetivamente se tornou realidade. Este entendimento, ou seja, de que a atividade é muito mais do que se prescreve e do que se pode observar, é fundamental para compreender e intervir sobre as situações de trabalho.

Referências

BENDASSOLLI, Pedro F. Mal-estar no trabalho: do sofrimento ao poder de agir inRevista Mal-estar e Subjetividade – Fortaleza – Vol. X – No 1 – p.63 – 98 – mar/2011.

LIMA, Maria Elizabeth Antunes. Contribuições da Clínica da Atividade para o campo da segurança no trabalho in Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, 32 (115): 99-107, 2007.

Entrevista: Yves Clot in Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, vol. 9, n. 2, pp. 99-107, 2006.

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