O Grupo de Pesquisa Psicologia, Trabalho e Processos Psicossociais marcou presença, mais uma vez, no IX Congresso Brasileiro de Psicologia Organizacional e do Trabalho (IX CBPOT). Dessa vez, com duas apresentações estruturadas em mesas redondas, uma no dia 06/11/2020 e outra dia 14/11/2020. Considerando o cenário de pandemia, essa edição do IX CBPOT foi 100% online, diferentemente da anterior, que aconteceu em no campus da PUC Goiás, em Goiânia (falamos um pouco dela aqui).

As duas mesas redondas propostas pelo grupo foram aprovadas e tivemos a oportunidade de falar um pouco sobre intervenções sob o viés das clínicas do trabalho nas instituições e também sobre um dos principais projetos do grupo, a pesquisa-intervenção em um sistema de exploração de minério de ferro.

A primeira mesa, intitulada “Intervenções em organizações laborais no contexto neoliberal: análise metodológica a partir das teorias Clínicas do Trabalho“, contou com a coordenação do Professor Doutor João César Fonseca e os pesquisadores Danielle Teixeira Tavares Monteiro, Jesus Alexandre Tavares Monteiro e Rodrigo Padrini Monteiro.

Confira o resumo da mesa:

“O cenário de hegemonia capitalista neoliberal tem exigido dos trabalhadores que atuam em organização de trabalho, especificamente diretamente ligado à saúde do trabalhador, um novo posicionamento frente ao saber e ao poder instituídos. Provocando uma reflexão sobre esse posicionamento, essa mesa reuni três trabalhos que objetivam instigar a discussão sobre os processos interventivos em organizações laborais a partir dos métodos utilizados nas intervenções, tendo como referência analítica as teorias clínicas do trabalho. O primeiro trabalho, baseado na Psicossociologia e tendo como referência metodológica a pesquisa-participante, apresenta a análise de uma intervenção ocorrida em uma organização pública de Minas Gerais, desenvolvida pelos profissionais da psicologia e do serviço social junto com um grupo de trabalhadores. Nessa análise, observamos que o processo interventivo psicossociológico possibilita deflagrar relações de poder institucional e micropoderes grupais, o que amplia o conhecimento sobre o contexto e desvela os conflitos institucionais, sendo a intervenção uma espécie de denúncia do contexto político no qual a organização se move. O segundo trabalho aborda a atuação do(a) psicólogo(a) no campo jurídico, especialmente no contexto das prisões. Busca descrever a atividade desses profissionais nas prisões, compreendendo a experiência de trabalho na perspectiva do sujeito que o realiza. Temas como os sentidos e representações atribuídas ao fazer profissional, relações de poder organizacional, pressões e desafios na realização da atividade aparecem como mecanismos que direcionam a forma como os trabalhadores realizam as intervenções nesses espaços, principalmente em busca de sentido no trabalho. Música e intervenção psicossocial no mundo do trabalho, é o tema do terceiro trabalho desta mesa, sendo um debate sobre as possibilidades de mediação de músicas relativas ao cotidiano do trabalho, por meio da Ergologia e da Psicologia Histórico Cultural. Trata-se de uma conversa com taxistas sobre seus conflitos, adoecimentos, desigualdades e sentido do trabalho por meio de canções brasileiras. De Noel Rosa a Titãs, de Gonzagão a Gonzaguinha, de Donga a Racionais MC, a linguagem musical expõe a possibilidade de refletir sobre prescrição literal de canções do trabalho, o real da atividade de trabalhadores e suas renormatizações. A partir desses três relatos buscaremos analisar a metodologia utilizada nas intervenções, identificando os limites e as possibilidades a partir das práticas apresentadas”.

A segunda mesa, intitulada “Debates práticos, teóricos e éticos acerca de uma intervenção em Psicologia do Trabalho e das Organizações em uma grande empresa de mineração“, contou com as comunicações do Professor Doutor João César Fonseca e dos pesquisadores Danielle Teixeira Tavares Monteiro e Rodrigo Padrini Monteiro.

Confira o resumo abaixo:

“Intervenções e pesquisas em instituições, das mais diversas naturezas, apresentam sempre um alto grau de complexidade e desafio para o psicólogo do trabalho e das organizações. Contudo, no que se refere ao psicólogo que busca uma atuação interdisciplinar, sob um viés crítico e que enfatiza o protagonismo dos trabalhadores, a promoção de saúde, as dinâmicas de poder e as construções sócio-político-econômicas, particularmente em um país desigual – e em uma de suas maiores crises políticas e econômicas da história – como o Brasil, deve-se esperar um número ainda maior de obstáculos. É neste cenário que propomos uma mesa para instigar debates práticos, teóricos e éticos, a partir de uma experiência de pesquisa-intervenção, iniciada em janeiro de 2018, em uma das maiores empresas de mineração do país, instalada no sudeste do Pará. Esta pesquisa ocorre no contexto de um novo sistema de exploração de minério de ferro, denominado “truckless”, que não utiliza caminhões no transporte do material, introduzindo modificações importantes na organização do trabalho e automatizando grande parte do processo produtivo. Respondendo à encomenda da instituição de atuarmos, junto a outros núcleos de pesquisa, em um programa de operadores de alto desempenho, no desenvolvimento de habilidades e competências que assegurassem o seu máximo rendimento, assim como investigar os fatores psicossociais que afetam diretamente os operadores de escavadeira elétrica a cabo, nossa pesquisa se desdobrou em diversas linhas de ação. Em nossa primeira comunicação, abordaremos os resultados preliminares, discutindo como a opção de não adaptar instrumentalmente os operadores aos critérios e exigências de seus gerentes, numa abordagem individualizante, mas adotar uma posição crítica, propondo uma intervenção que enfatizasse a dimensão coletiva do trabalho e considerasse, de maneira estruturante, os saberes, valores e a experiências dos operadores, vem sendo recebida e administrada. Em seguida, passamos ao trabalho com as famílias dos operadores, por meio do qual, na tentativa de intervir sobre o risco trabalho-família, foi desenvolvido o projeto “O Livro da Vida: laços de família”, que priorizou o diálogo intrafamiliar, a socialização das histórias de vida e a promoção do apoio social. Por fim, chegamos à complexidade do gerenciamento de um projeto como este, que envolve a negociação entre diferentes atores, articulação de interesses e transversalidade no que diz respeito ao diálogo entre campos teóricos distintos, como a Psicologia Social, a Avaliação Psicológica e as Abordagens Clínicas do Trabalho, defendendo a importância de promover a metacognição como estratégia formativa para a formação de pesquisadores”.

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