Por *Marcela de Oliveira Sousa; **Danielle Teixeira Tavares Monteiro; ***Rafael Soares Mariano Costa; ****Jesus Alexandre Tavares Monteiro

O artigo trabalhado nesta resenha tem como título “Vida, saúde e trabalho: dialogando sobre qualidade de vida no trabalho em um cenário de precarização, é de autoria de Milton Athayde e Jussara Brito, e foi publicado no sétimo volume da revista Trabalho, Educação e Saúde, em 2010. A partir da perspectiva da ergologia, os autores propõem um diálogo com o texto de Padilha (2010), intitulado “Qualidade de vida no trabalho num cenário de precarização: a panaceia delirante”, que serviu de base para o debate do número da revista em questão.

Athayde e Brito (2010) tomam como base o argumento de Padilha (2010) de que as políticas de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) adotadas pelas empresas visam tratar sintomas, mas não atingem os problemas estruturais que os geram. A partir desta citação, os autores situam o texto de Padilha (2010) na perspectiva crítica da compressão do trabalho. Nesta perspectiva, busca-se entender de que forma é possível causar movimentos de transformação social por meio do estudo do mundo do trabalho. De acordo com os pressupostos da ergologia, tal proposta só se faz possível a partir da compreensão do trabalho concreto e do diálogo entre diversos saberes.

Destarte, os autores chamam a atenção para a afirmativa colocada no título do texto de Padilha (2010): QVT como uma panacéia delirante. Os autores argumentam que a partir da compreensão de que o capital não possui limites à sua expansão que não seja o próprio capital, é possível dizer que ele delira. Recorrendo à mitologia grega para explicar o uso do substantivo “panaceia”, faz-se analogia à dicotomia entre promoção da saúde (representada no mito por Higia, deusa associada à promoção da saúde) e cura (representada por Panaceia, deusa da farmácia e da cura). A partir deste desenvolvimento, justifica-se a citação anterior: QVT como um remédio em detrimento de modificações estruturais.

Segundo os autores, a QVT pode ser concebida como uma ideologia, e como tal, é importante considerar que esta não possui um fim em si, mas se articula às reinvenções do capital, necessárias diante das reestruturações produtivas. Athayde e Brito (2010) argumentam que a produção capitalista compreendeu que o conceito de qualidade não se aplica apenas ao produto, mas perpassa pelos processos de produção e, por conseguinte, pelos trabalhadores. A partir de então, verificam-se iniciativas voltadas para os aspectos subjetivos e relacionais implicados no processo produtivo. Os autores apontam as clínicas do trabalho como ferramentas teórico-metodológicas úteis para a compreensão e intervenção diante de tais fenômenos.

Athayde e Brito (2010) concluem o texto explorando de que se trata a QVT a partir de suas bases. Situam o movimento de Qualidade de Vida (QV) anterior à QVT, com os primeiros registros datados da década de 1930. Inicialmente muito vinculada à discussão sobre o impacto das doenças na vida das pessoas, a partir de 1990 os aspectos da multidimensionalidade e subjetividade (necessidade de se considerar a percepção do próprio indivíduo) da QV são considerados na delimitação deste conceito, embora ainda fluido.

A QVT surge no momento pós-guerra e se divide entre duas concepções: uma vinculada a pressupostos behavioristas aliados ao capital e outra referenciando-se pela Escola Sociotécnica, de orientação psicanalítica. Segundo os autores, embora dentro dos limites do capital, a Escola Sociotécnica possui potencial para a transformação social.

Diante disso, os autores afirmam que existe uma relação muito próxima entre QVT e precarização, mas que é necessário explorar caminhos de transformação possíveis a partir dela. Entende-se que assim como no caso da terceirização, QVT e precarização não devem ser concebidos como sinônimos. A partir da perspectiva crítica, é possível uma investigação em busca das possibilidades existentes no real. O texto de Athayde e Brito apontam para a necessidade de um constante diálogo entre saberes e do investimento no potencial de transformação. Compreende-se a sociedade, o trabalho e o humano enquanto inacabados, repletos de contradições e possibilidades.

Referências:

ATHAYDE, Milton; BRITO, Jussara. Vida, saúde e trabalho: dialogando sobre qualidade de vida no trabalho em um cenário de precarização. Trabalho, Educação e Saúde,  Rio de Janeiro ,  v. 7, n. 3, p. 587-597,  Nov. 2009.  Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-77462009000300012&lng=en&nrm=iso. Acesso em 10  Nov.  2020. 

PADILHA, Valquíria. Qualidade de Vida no Trabalho num contexto de precarização: a panacéia delirante. Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, p. 549-563, nov. 2009/fev. 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-77462009000300009&lng=pt&tlng=pt. Acesso em: 11 nov 2020.

*Marcela de Oliveira Sousa é graduanda no curso de Psicologia da PUC Minas, bolsista de iniciação científica do grupo de pesquisa Psicologia, Trabalho e Processos Psicossociais.

**Danielle Teixeira Tavares Monteiro é Assistente Social, mestre e doutora em Psicologia pela PUC Minas, Analista Legislativo da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais (ALMG).

***Rafael Soares Mariano Costa é psicólogo pela PUC Minas, mestre em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local pela UNA e doutorando em Psicologia pela PUC Minas.

****Jesus Alexandre Tavares Monteiro é psicólogo graduado pela PUC Minas, mestre e doutor em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente é docente na Unincor e Unihorizontes, e desenvolve seus estudos sobre arte, trabalho e sociabilidade.