Por Milena Evellyn Pereira Drummond[1]; Rafael Nascimento de Castro[2]; João César de Freitas Fonseca[3]

A presente resenha refere-se ao ensaio “Uma intervenção em Psicologia do Trabalho – contribuições da Clínica da Atividade” de autoria de Giselle Reis Brandão, doutora em Psicologia Social do Trabalho pela UFMG e coordenadora do Laboratório em Psicologia Organizacional e do Trabalho (LAPOT) do curso Psicologia da PUC Betim, e Maria Elizabeth Antunes Lima, doutora em Sociologia do Trabalho pela Universidade de Paris IX (Paris-Dauphine), publicado em 2019, pela Revista Brasileira de Saúde Ocupacional.

O ensaio se inicia trazendo os dois principais problemas da psicopatologia do trabalho, dizendo que o estabelecimento do nexo entre transtornos mentais e trabalho é privilegiado nas pesquisas, e que o desenvolvimento de formas de intervenção que promovam a saúde no trabalho acaba não avançando, sendo, portanto, o interesse das autoras favorecer esse avanço, “propondo um caminho de intervenção em psicopatologia do trabalho por meio de uma perspectiva inovadora vinda da clínica da atividade (CA)” (p.2). Em seguida, elas abordam as bases teórico-metodológicas da psicopatologia do trabalho, trazendo a crítica de Yves Clot a Le Guillant por se afastar das clínicas do trabalho, como hoje entendemos, ao não considerar a atividade de trabalho como um meio de ação, e sim como um objeto de análise.

A despeito das contribuições da clínica da atividade para uma intervenção em psicopatologia do trabalho, as autoras apontam a premissa de que a análise deve ser feita no “ambiente habitual”, focando na ação, mas incorporando a emoção e o afeto, buscando a transformação das situações de trabalho, sendo os trabalhadores os protagonistas dessa transformação, e focando, também, na realização do propósito maior da CA: o desenvolvimento da atividade, colocando a atividade profissional no centro do debate.

A CA atua, então, através da construção de uma demanda representativa do coletivo de trabalho, onde a ação individual adquire uma definição pela perspectiva coletiva (coanálise), que incrementa o poder de agir do profissional. As autoras abordam também o conceito de ofício, citando os quatro componentes que referenciam o trabalhador em sua maneira de ser e fazer no seu meio profissional, destacando o gênero profissional, que por definir tal meio e servir de sistema de apoio ao indivíduo, é favorável à saúde.  

Brandão e Lima (2019) relatam que é preciso alcançar o real da atividade para se ter acesso a dimensão afetiva do trabalho, sendo assim, é essencial que o próprio trabalhador atribua sentido às emoções e afetos presentes em sua atividade, para tanto, a CA tem desenvolvido métodos que fazem parte de um quadro dialógico, sendo a Instrução ao Sósia (IS) o método escolhido para ser abordado no ensaio. A IS visa, individual e coletivamente, resgatar a experiência de trabalho e produzir um novo conhecimento sobre este, através da seguinte questão: “suponha que eu seja o seu sósia e que amanhã eu me encontre em situação de dever substituí-lo em seu trabalho. Quais instruções você deveria me transmitir de modo que ninguém perceba a substituição?” (ODDONE, 1960 apud BRANDÃO & LIMA, 2019, p.4).

Após apresentarem tal método, as autoras relatam uma intervenção em uma organização privada de cuidado a pessoas com deficiências graves na qual ele foi utilizado, descrevendo o processo que dividiu-se em três etapas, uma preliminar, de observação da dinâmica, uma junto a um primeiro grupo de cuidadores, com duração de nove encontros, e uma terceira que constituiu-se em uma repetição da etapa anterior com um segundo grupo de cuidadores, com duração de sete encontros. Elas expõem que não foi possível seguir todas as “três grandes fases metodológicas” da intervenção conforme proposto pela CA, descritas no ensaio, mas que ainda assim houve desenvolvimento da relação com a atividade por parte dos cuidadores. Brandão e Lima (2019) contam que a demanda não se originou da organização, mas que após proposta a intervenção, houve uma elaboração comum da mesma em torno de um problema real: a qualidade do cuidado prestado ao paciente, reconhecendo-se os dilemas desse fazer.

As autoras apontam para uma degenerescência do gênero nessa organização, que levava a interpretação das situações conflitivas como um problema de ordem pessoal, não sendo possível, portanto, pensar a atividade de forma coletiva. Isso conduzia a transgressões arriscadas, intensificação do conflito direto com o colega e apelo à hierarquia. Elas relatam que a IS possibilitou o debate em torno dos modos de cuidar, ou seja, os estilos profissionais, cuja diferença inicialmente apareceu como cerne da demanda e ao final da intervenção como algo positivo, um recurso para a própria ação.

Para essa discussão, Brandão e Lima (2019) trouxeram um interessante texto produzido por um dos cuidadores após escutar sua IS. Finalizam dizendo que por construírem novos caminhos de ação e contextos para viverem, e por compartilharem as mazelas e riscos do trabalho ao reviverem suas experiências nos aspectos pessoal, interpessoal, impessoal e transpessoal, a intervenção favoreceu a saúde desses trabalhadores.

Referências:

BRANDÃO, Giselle Reis; LIMA, Maria Elizabeth Antunes. Uma intervenção em Psicologia do Trabalho – contribuições da Clínica da Atividade. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional. 2019. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/rbso/v44/2317-6369-rbso-44-e19.pdf&gt;. Acesso em: 24, out. 2020.


[1] Graduanda em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, bolsista de iniciação científica do grupo de pesquisa Psicologia, Trabalho e Processos Psicossociais.

[2] 2 Psicólogo, Especialista em Gestão de Pessoas e Mestrando em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atualmente é bolsista no Programa de Operadores de Alto Desempenho (POAD).

[3] Psicólogo, Especialista em Gestão de Recursos Humanos, Mestre em Psicologia Social e Doutor em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente é professor adjunto na Faculdade de Psicologia da PUC Minas.