Outro dia, no trânsito, me deparei com um caminhão de lixo. Assistindo à cena, pude observar, por um tempo, os trabalhadores que corriam copiosamente atrás do caminhão. Eles apanhavam o lixo, no mesmo instante em que o caminhão se deslocava pela rua. Eles corriam atrás do caminhão com os braços pesados pelos grandes sacos de lixo. A cena continuava como um replay: eles apanhavam o lixo, corriam e o lançavam no caminhão, e assim sucessivamente, por muitas e muitas vezes.

Mas, entre um apanhar, um correr e um lançar, pude perceber a brincadeira que, curiosamente, reinava entre eles. Eles conseguiam se divertir naquela atividade. Eles cumprimentavam as pessoas que andavam na rua, mexiam com os motoristas dos carros, mexiam uns com os outros quando, entre uma corrida e outra, alguém tropeçava, ou quando algo saía fora do que estava planejado.

Faziam o prescrito, mas cada trabalhador se ressaltava na cena. Aquilo poderia ser uma cena triste, mas não era. Me diverti com a diversão deles. Mas, mesmo com a aparente alegria na execução da tarefa, as condições de trabalho eram precárias, visivelmente precárias. Deu para perceber que eles estavam sem os equipamentos de segurança necessários, como luvas especiais, por exemplo. Havia um desgaste na execução daquela atividade. Aquilo realmente era um trabalho sofrido.

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No mesmo dia, me deparei, no consultório, atendendo um trabalhador que ocupava um cargo de gerência em uma grande instituição pública em Minas Gerais. Pessoa concursada, com estabilidade, que, com toda certeza, ganhava mais de vinte mil reais por mês. Esse trabalhador não tinha um trabalho duro e penoso, como o dos trabalhadores do caminhão de lixo – pelo menos, não no sentido mais aparente. Não se tratava de um trabalho sofrido, como observamos naquele caso, mas a tristeza no desenvolvimento de sua atividade provocou um depoimento melancólico e triste.

Havia um esvaziamento de sua subjetividade na execução da tarefa. Nada era reconhecidamente bom no desenvolvimento da atividade gerencial, não haviam relacionamentos saudáveis e confiança no ambiente de trabalho. Os problemas na organização do trabalho eram visíveis, o que afetava diretamente a sua saúde mental. Com isso, o diagnóstico de depressão e alcoolismo foram inevitáveis e o afastamento do trabalho se prolongava por mais de sessenta dias. Dessa forma, seus relatos sobre o trabalho me fizeram refletir sobre o seu sofrimento no trabalho e, naquele momento, a comparação foi inevitável.

Em meus devaneios sobre essas duas realidades, me lembrei de Renato Luiz Feliciano Lourenço, conhecido também como Renato Sorriso, gari que ficou famoso no Carnaval por varrer o sambódromo dançando, além de carregar um imenso sorriso estampado no rosto. O prescrito de sua atividade dizia que ele deveria varrer todo o sambódromo, um trabalho difícil e que gerava considerável sobrecarga física.

Porém, na execução de sua atividade, transformando o prescrito em real, ele se tornou um dos maiores símbolos do carnaval do Brasil. Ao executar sua tarefa, ele se destacou:

“Quando a escola acabou de passar e a gente começou a varrer, não resisti e comecei a sambar. O povão gostou, mas levei a maior bronca do meu chefe” (OLIVEIRA, 2018).

O reconhecimento social foi tamanho que ele teve a oportunidade de conhecer oito países, ser um dos destaques da comitiva brasileira no encerramento das Olimpíadas de Londres e segurar a Tocha Olímpica, fazendo também participações em novelas. Através da dança, ele conseguiu reconhecimento social em seu trabalho, pois ele desempenhava sua tarefa com alegria. Ele tinha um trabalho sofrido, mas o executava de forma criativa e singular, o que o distanciava do sofrimento no trabalho.

Dessa forma, podemos refletir se todo trabalho sofrido gera sofrimento no trabalho. De uma certa maneira, a resposta é: sim. A linha que separa o trabalho sofrido do sofrimento no trabalho é tênue, sendo complexo fazer essa separação. Nosso objetivo aqui não é distanciá-los, mas nossa experiência na clínica no trabalho assinala para a necessidade em se ampliar essa discussão, pois ela aponta para a compreensão dos aspectos subjetivos do trabalho, extrapolando os aspectos objetivos, como as condições de trabalho, por exemplo.

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Um trabalho sofrido pode ser associado a um trabalho de difícil execução, que demanda uma carga física alta, um alto nível de energia no desenvolvimento da atividade. É um trabalho que gera algum tipo de sofrimento, como todo tipo de trabalho, mas não necessariamente os trabalhadores que executam essa atividade estão em sofrimento no trabalho, ou pelo menos no que a Psicodinâmica do Trabalho denomina de sofrimento patológico, gerador de doença.

As discussões propostas pela Psicodinâmica do Trabalho, criada por Christophe Dejours, na França, a partir década de 80, apresentam grandes contribuições para o estudo do sofrimento e do adoecimento do trabalhador. Para esse autor, o sofrimento é algo inerente a todo processo de trabalho, pois ele coloca o trabalhador diante a realidade na execução da atividade, diante o real do trabalho, diante aquilo que não está prescrito, e isso acaba sendo fonte de angustia.

O real se refere à possibilidade do trabalhador se colocar no trabalho, trata-se do “varrer dançando e sorrindo” observado no caso do Renato Sorriso. A dança e a alegria, nesse caso, extrapolaram o prescrito da atividade de varrer, sendo o trabalhador inclusive chamado atenção pelo seu chefe.

Nesse caso, o sofrimento vivenciado por Renato Sorriso se refere ao que Dejours (2009) denomina sofrimento criativo, que alude àquele sofrimento inerente à constituição do sujeito, no qual o trabalho tenha sentido. Trata-se de produção de subjetividade pela via essencial de confrontação com o real que é o trabalho.

Já no caso do gerente, observamos o oposto, trata-se do sofrimento patogênico (DEJOURS, 2009). Esse sofrimento se instaura quando o sujeito não consegue ou não tem possibilidade de significar e ressignificar seu sofrimento, aparecendo, dessa forma, a doença. Assim,

[…] aquilo que mais tarde foi designado sofrimento patogênico: a saber, o sofrimento que emerge quando todas as possibilidades de adaptação ou de ajustamento à organização do trabalho pelo sujeito, para colocá-la em concordância com seu desejo, foram utilizadas, e a relação subjetiva com a organização do trabalho está bloqueada (DEJOURS, 2009, p. 127).

Apesar dessa separação entre sofrimento criativo e sofrimento patogênico, Dejours (1992) argumenta que a divisão do sofrimento em componentes diferentes não significa que existe mais de um tipo de sofrimento. “Existe uma vivência global cuja decifração leva à descoberta de vários aspectos” (DEJOURS, 1992, p. 48). Assim, podemos entender que nem todo trabalho compreendido aqui como sofrido é necessariamente fonte de sofrimento patológico.

As reflexões que se sucederam nesse texto foram apenas alguns apontamentos para se pensar sobre as inúmeras relações entre trabalho e sofrimento, o que abre novos caminhos de discussão sobre processos de subjetivação no trabalho, seja ele um trabalho sofrido ou um trabalho gerador de sofrimento.

Com isso, buscamos, também, desmistificar a existência de trabalhos tido como ruins. Trabalho é trabalho. O mais importante é refletir sobre a relação que se estabelece entre o trabalhador e seu trabalho no campo subjetivo, pois essa é uma instância importante na compreensão do sofrimento.

Referências

DEJOURS, C. A loucura do trabalho: estudo da psicopatologia do trabalho. Tradução de Ana Isabel Paraguay e Lúcia Leal Ferreira. 5. ed. São Paulo: Cortez – Oboré, 1992.

DEJOURS, C. Psicodinâmica do Trabalho: contribuições da escola Dejouriana a análise da relação prazer, sofrimento e trabalho. São Paulo: Atlas, 2009.

OLIVEIRA, Romário de. Renato Sorriso é símbolo do carnaval e se tornou o gari mais famoso do País. Disponível em: http://ultimosegundo.ig.com.br/colunas/afro-igualdade/2018-02-09/renato-sorriso.html

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