O filósofo francês Michel Foucault (1987) analisa o poder não como uma propriedade, mas como uma estratégia que dispõe de dispositivos, táticas e manobras para promover a dominação. Ele se apresenta como uma rede de relações que se encontra em constante atividade, investindo nos indivíduos para que eles atuem no sentido de garantir o equilíbrio e a manutenção de um modo de organização social vigente.

A análise foulcautiana não se aplica apenas aos âmbitos do direito ou da criminologia, seu ponto de partida, mas pode ser expandida ao contexto social com um todo, abarcando as empresas inseridas no contexto do capitalismo financeiro.

Apesar da ciência da administração apontar que a gestão encontra-se em evolução, passando a considerar os trabalhadores como seu principal ativo e focando suas práticas na valorização intelectual, o que se observa na prática é um incremento dos modos de controle e exploração que há muito deixaram de se ater ao domínio dos corpos e voltaram seus olhares para as mentes daqueles que trabalham.

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Segundo Siqueira (2010), a gestão pressiona cada vez mais o indivíduo, assimilando a sua subjetividade de modo a torná-lo servo de todo o processo produtivo que o coisifica e que impede, não raras vezes, a mobilização de sua criatividade profissional.

Conforme apontado por Pagés et al (1993), o que se verifica nas organizações hipermodernas é que elas dispõem de sistemas que viabilizam a intermediação entre suas ações de exploração e dominação e as vantagens e benefícios oferecidos aos indivíduos, de tal modo que a contradição é minimizada e os que nela trabalham inclusive colaboram para a sua própria submissão.

Isto posto, pode-se pensar na atualidade das constatações de Foucault, tendo em vista que a gestão gerencialista utiliza essa estratégia de poder, adotando dispositivos de controle cada vez mais refinados, o que não é consequência para os trabalhadores.

No contexto atual, atividade do poder mostra-se bastante eficaz, na medida em que, apesar do constante incremento da exploração e do aumento dos casos de adoecimento laboral, nota-se um enfraquecimento dos mecanismos de defesa dos trabalhadores, sobretudo no âmbito coletivo, o que pode ser corroborado pelo esmaecimento dos coletivos de trabalho e da organização sindical, dentre outros.

A ênfase da gestão atual recai, sobretudo, na maximização dos resultados financeiros. Dentro desse contexto, os trabalhadores são colocados, exclusivamente, a serviço do cumprimento de metas cada vez mais arrojadas e impossíveis de serem alcançadas. O trabalho, enquanto atividade transformadora e dotada de sentido, perde lugar para atividades cada vez mais alienadas que visam unicamente o aumento dos lucros que, na grande maioria das vezes, beneficiam apenas aqueles que não trabalham.

Cabe aqui ressaltar que não se trata de impedir a geração de lucro ou de melhorar resultados, mas que instituir uma gestão focada exclusivamente neste aspecto torna-se pouco sustentável, sobretudo, para a sobrevivência das próprias organizações.

O trabalhador alienado e sem autonomia diante de sua própria realidade de trabalho é impossível de se tornar motivado. Nesse sentido, ao instituir esse modelo de intensa submissão dos corpos e do psiquismo, as organizações, além de produzirem um aumento do adoecimento, perdem um importante elemento que poderia contribuir para a melhoria da produtividade, o saber dos trabalhadores acerca do próprio trabalho.

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Diante do exposto, é possível questionar se, ao invés de incrementar mecanismos de controle e submissão, não seria mais válido e construtivo repensar a gestão vigente, a partir da instituição de um novo modelo que considere a participação e o saber daqueles que trabalham.

Valorizar a autonomia ao invés do controle é uma perspectiva que visa trazer benefícios para os trabalhadores e para as organizações a partir da construção de um horizonte que possibilite não apenas a promoção de saúde, mas também a tão almejada melhoria dos resultados organizacionais.

Referências

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

PAGÉS, M. et.al. O poder das organizações. São Paulo: Atlas, 1993.

SIQUEIRA, M.V.S. Gestão, violência e servidão nas organizações: Contribuições da sociologia clínica e da psicodinâmica do trabalho. In: MENDES, A. M.; MERLO, A. R.C.; MORRONE, C. F.; FACAS, E. P. (2010) Psicodinâmica e Clínica do Trabalho – Temas, interfaces e casos brasileiros. Curitiba: Juruá, 2010.

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