Por Milena Evellyn Pereira Drummond*; Rafael Nascimento de Castro**; João César de Freitas Fonseca***

A presente resenha refere-se ao artigo “Análise psicológica do trabalho: dos conceitos aos métodos”, publicado em 2006, pela revista Laboreal, de autoria de Marta Santos. A proposta foi apresentar o quadro teórico metodológico dos estudos sobre a atividade de trabalho realizados por Yves Clot.

São dez tópicos: 1) Biografia do autor, 2) A actividade e a subjectividade, 3) A actividade para os outros, 4) Pré(-)ocupações, 5) Actividade realizada e o real da atividade, 6) Da organização do trabalho ao género profissional, 7) Do género ao estilo profissional, 8) Fabricar o género profissional: um processo de co-análise do trabalho, 9) Clínica da atividade e 10) A estrutura da atividade. O texto apresenta uma leitura de fácil compreensão, sendo uma ótima indicação para aqueles que buscam começar os estudos sobre a clínica da atividade.

A autora descreve que, em seus trabalhos, Yves Clot buscou repensar e retrabalhar os pares prescrito e real, tarefa e atividade herdados da psicologia do trabalho francófona incorporando a oposição do sujeito a si mesmo através do conceito de atividade impedida. O autor assume uma postura histórico-psicológica, considerando a história de desenvolvimento ao explicar como o trabalho desenvolve a sua função psicológica na vida profissional e social, sob influência da teoria Vygotskyana.

Para essa abordagem clínica do trabalho, toda atividade é uma atividade dirigida: a si próprio, ao objeto de trabalho, e a outro(s), se constituindo como coatividade e contraatividade, mas esclarece que: “não se trata da existência de uma oposição, a actividade dos outros não é ‘inimiga’, a nossa actividade é que se define, cristaliza, organiza na actividade dos outros, com a actividade dos outros, contra a actividade dos outros, apoiando-se ou aproximando-se da actividade dos outros” (p35). A autora apresenta um estudo no setor de condução de comboios conduzido por Clot nos subúrbios parisienses para explicar e exemplificar tal ideia, bem como outras expostas no artigo, auxiliando na compreensão dos conceitos apresentados.

Diante de situações de trabalho em que o sujeito se encontra passivo a uma rotina imposta, o seu espírito passa a ocupar-se, também, de pré-ocupações, derivadas de suas outras atividades, referentes a sua vida pessoal. Para superação de tal automatismo, visando “fixar o espírito” do trabalhador em sua atividade, faz-se necessário a realização da tarefa de forma que não estava prevista, tratando-se de um enriquecimento de funções, ação denominada como catacrese. Essa é uma ferramenta profissional que faz parte da profissão, é a “transformação das suas pré-ocupações em ocupações, em acções, sendo que, este é, para Clot, o processo central de desenvolvimento dos sujeitos” (SANTOS, 2006, p.36).

Santos (2006) assinala que para Yves Clot, a atividade realizada não é toda a atividade, esta é também o que não se faz, o que se desejaria fazer, o que se deve fazer, e o que se faz sem necessidade, e, dessa forma, a atividade real, oposta a tarefa, é dividida em atividade realizada e real da atividade. O autor considera que é a atividade impedida que cansa.

Outro conceito adotado por Yves Clot e trabalhado por Santos (2006) é o de gênero profissional ou do trabalho da organização, trata-se do prescrito informal, das obrigações, das maneiras de fazer partilhadas por um coletivo profissional para que se possa trabalhar em determinado momento. Esse fazer coletivo possibilita que as ferramentas que “fixam o espírito” do trabalhador não sejam caracterizadas como transgressões. De acordo com a autora, é um recurso para ação, para além de mera pertença social, e, portanto, assume função psicológica importante, auxiliando na manutenção da saúde psíquica.

Para que o gênero profissional permaneça vivo, é preciso discuti-lo, cabendo, então, ao psicólogo do trabalho, fabricar o gênero, criando espaços para que os trabalhadores falem de seu trabalho, tornando-o objeto de pensamento. Esse falar reflexivo é possível através de algumas metodologias, sendo o método de auto confrontação cruzada uma delas. Tal método transforma a ação em ação refletida ao re-descrever a atividade. Trata-se de uma co-análise do trabalho, onde cada trabalhador comenta a atividade dos outros a despeito de uma mesma atividade, conjuntamente ao psicólogo. Clot, segundo Santos (2006), reconhece o papel do estilo nesse processo, vez que, ao transpor para a linguagem oral, as atividades se modificam, havendo uma elaboração estilística que revitaliza o gênero.

Esse método de análise do trabalho é potenciador da transformação da atividade, vez que forma o sujeito em instrumento de transformação da experiência, e é resultante da relação entre o operador e o perito, que deve agir como mediador, sendo um recurso para ajudar os sujeitos do gênero profissional a agirem sobre o trabalho da organização. O perito na clínica da atividade tem um papel na situação estudada, faz parte e interfere nela, devendo assumir esse papel e agir intencionalmente.

A autora finaliza proferindo que a atividade é, simultaneamente, pessoal, interpessoal, pois é dirigida a outros, transpessoal, pois é atravessada pela história coletiva do trabalho, e impessoal, em função da tarefa prescrita, constituindo a “estrutura dinâmica da atividade”. Todas devem ser consideradas na intervenção pela clínica da atividade, sendo possível, assim, recuperar a estrutura do desenvolvimento possível ou impossível da atividade.

Referências

SANTOS, Marta. Análise psicológica do trabalho: dos conceitos aos métodos. Laboreal, vol. II, nº 1. 2006, p.34-41. Disponível em: <http://laboreal.up.pt/files/articles/2006_07/pt/34-41pt.pdf&gt;. Acesso em: 27, de set. 2020.

* Graduanda em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, bolsista de iniciação científica do grupo de pesquisa Psicologia, Trabalho e Processos Psicossociais.

** Psicólogo, Especialista em Gestão de Pessoas e Mestrando em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atualmente é bolsista no Programa de Operadores de Alto Desempenho (POAD).

*** Psicólogo, Especialista em Gestão de Recursos Humanos, Mestre em Psicologia Social e Doutor em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente é professor adjunto na Faculdade de Psicologia da PUC Minas.