Os dias atuais têm apresentado grandes desafios para o ser humano. Vivenciamos um cenário político, econômico, social, cultural e temporal de muita instabilidade e insegurança que impacta diretamente a saúde física e mental de todos nós. Esse impacto pode ser observado, principalmente, pelo aumento dos transtornos mentais e comportamentais.

Esses transtornos se referem à nomenclatura utilizada pela Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID 10), incluídas na CID F (00-99), e são compreendidos como condições caracterizadas por alterações mórbidas do modo de pensar e/ou do humor (emoções), e/ou por alterações do comportamento associadas à angústia expressiva e/ou deterioração do funcionamento psíquico global (BALLONE, 2008, s.p).

Os transtornos mentais e comportamentais englobam um conjunto de doenças, todas elas multideterminadas por fatores biológicos, psicológicos e sociais. Um fator importante apresentado em diversas pesquisas contemporâneas é o trabalho e, consequentemente, o ambiente laboral (JARDIM, 2011; CENCI, 2004; GUIMARÃES, 2013 E TEIXEIRA, 2007).

Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), ocorreu no Brasil um aumento de 480% na incidência das doenças relacionadas à atividade e ao meio laboral, passando de seis mil, na década de 80, para quarenta mil em 2010 (CHAVES, s.d).

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Em 2017, a Secretaria de Previdência do Ministério da Fazenda, em parceria com o Ministério do trabalho, lançou um boletim que teve como tema “Adoecimento Mental e Trabalho” e que analisou a concessão de benefícios por incapacidade relacionados a transtornos mentais e comportamentais entre 2012 e 2016, no âmbito do regime geral de previdência.

O estudo evidenciou que as doenças do CID F (00-99) foram a terceira causa de incapacidade para o trabalho, totalizando 668.927 casos, cerca de 9% do total de auxílios-doença e aposentadorias por invalidez concedidos nesses cinco anos de análise.

O estudo também mostrou que 92% da concessão de auxílios-doença relacionados a transtornos mentais não tiveram relação com o trabalho, ou seja, foram concedidos mais auxílios-doença previdenciários que acidentários – àqueles que têm relação com trabalho. Esta informação permite inferir que o agravo mental enseja de modo mais frequente o afastamento temporário e não relacionado à atividade do trabalhador. (MINISTÉRIO DA FAZENDA – SECRETARIA DA PREVIDÊNCIA SOCIAL, 2017)

Entretanto, nossa experiência nas clínicas do trabalho demonstra que esses números não correspondem à realidade em termos de adoecimento mental relacionado ao trabalho, tendo em vista a subnotificação das doenças mentais devido à dificuldade na construção do nexo causal com o trabalho, o que também não é de interesse dos empregadores.

A relação entre adoecimento mental e trabalho é sutil, sendo o trabalho uma causa necessária ou um fator contributivo e/ou agravante para o adoecimento. Os transtornos mentais e comportamentais relacionados ao trabalho são entendidos, principalmente, como transtornos resultantes de situações que ocorrem no trabalho (SELIGMANN-SILVA et al. 2010).

Tais transtornos podem ser provenientes de fatores objetivos, como exposição a determinados materiais e/ou componentes tóxicos, ou relacionados aos efeitos do ambiente de trabalho na vida psíquica. Aqui, se associam às relações de trabalho, às relações institucionais, às condições e à organização do trabalho.

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De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 30% dos trabalhadores são acometidos com os denominados Transtornos Mentais Menores, abrangendo os distúrbios não psicóticos que apresentam sintomas ansiosos e/ou depressivos (COUTINHO, 1995), sendo caracterizados, principalmente, pelo estado de sofrimento mental e não resultam em licenças prolongadas do trabalho. Cerca de 5% a 10% dos trabalhadores são diagnosticados com Transtornos Mentais Graves, contemplados na condição de adoecimento mental, que podem se caracterizar, inclusive, por fenômenos psicóticos.

A depressão é uma doença comumente vista nos ambientes de trabalho. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, em 2017 estimou-se que 350 milhões de pessoas de todas as idades sofrem com esse transtorno. Nesse mesmo ano, esse mesmo órgão chamou a atenção para o aumento da doença, lançando a campanha Let’s talk (“Vamos conversar”), para reforçar a necessidade de campanhas informativas que visem o conhecimento e a diminuição do estigma associado a doença (ONU-BR, 2016).

Como justificativa para tal iniciativa, a OMS demostrou que a depressão é um transtorno mental frequente, sendo a principal causa de incapacidade em todo o mundo.

A sintomatologia da depressão é ampla, o que exige um diagnóstico médico especializado. Segundo Dalgalarrondo (2008), as síndromes depressivas se caracterizam por “uma multiplicidade de sintomas afetivos, instintivos, ideativos e cognitivos, relativos à autovaloração, à vontade e à psicomotricidade” (p. 307).

Em relação ao trabalho, o Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde (BRASIL, 2001) definiu a depressão como:

[…] humor triste, perda do interesse e prazer nas atividades cotidianas, sendo comum uma sensação de fadiga aumentada. O paciente pode se queixar de dificuldade de concentração, pode apresentar baixa autoestima e autoconfiança, desesperança, ideias de culpa e inutilidade; visões desoladas e pessimistas do futuro, ideias ou atos suicidas. O sono encontra-se frequentemente perturbado, geralmente por insônia terminal. O paciente se queixa de diminuição do apetite, geralmente com perda de peso sensível. Sintomas de ansiedade são muito frequentes. A angústia tende a ser tipicamente mais intensa pela manhã. As alterações da psicomotricidade podem variar da lentificação à agitação. Pode haver lentificação do pensamento. Os episódios depressivos devem ser classificados nas modalidades: leve, moderada, grave sem sintomas psicóticos, grave com sintomas psicóticos (BRASIL, 2001, p. 178).

É difícil fazer a relação entre episódios depressivos e trabalho, principalmente na construção de um nexo causal. Mas, as pesquisas no campo de saúde do trabalhador apontam que as relações, as condições e a organização do trabalho podem ser fatores desencadeantes de depressão, conforme para os demais transtornos mentais.

As decepções sucessivas em situações de trabalho, as frustrações, principalmente com falta de reconhecimento na atividade, as exigências excessivas de desempenho, o excesso de competição, a perda da solidariedade no ambiente de trabalho, o controle excessivo por parte das chefias e dos colegas, a falta de autonomia, a rigidez na execução das tarefas dentre outras coisas, podem ser fonte de angústia e desencadear um processo depressivo.

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Nesse sentido, conversar sobre a doença nos ambientes laborais pode ser uma forma eficaz, conforme exposto pela OMS, não somente para disseminar conhecimento mas para diminuir o estigma que gira em torno da doença. Muitas vezes o trabalhador deprimido é visto como preguiçoso e até mesmo mentiroso, pois esse tipo de adoecimento não é palpável, e sim subjetivo.

Trata-se de uma dor invisível muitas vezes incompreendida pelos colegas. Além disso, em relação à prevenção, o Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde (BRASIL, 2001) diz da necessidade em desenvolver um trabalho integrado, interdisciplinar, abrangendo as diversas instâncias do sujeito – biológico, psíquico e social:

A prevenção dos episódios depressivos relacionados ao trabalho consiste, basicamente, na vigilância dos ambientes, das condições de trabalho e dos efeitos ou danos à saúde […]. Requer uma ação integrada, articulada entre os setores assistenciais e da vigilância, sendo desejável que o atendimento seja feito por uma equipe multiprofissional, com abordagem interdisciplinar, capacitada a lidar e dar suporte ao sofrimento psíquico do trabalhador e aos aspectos sociais e de intervenção nos ambientes de trabalho (BRASIL, 2001, p. 180).

Nessa lida, a identificação dos riscos psicossociais decorrentes do trabalho é fundamental na prevenção do adoecimento. Esses riscos são amplos, englobando desde as condições e a organização do trabalho até mesmo as características do trabalhador, sua natureza, suas necessidades e sua situação fora do trabalho (NEFFA, 2015).

Assim, medidas interventivas de prevenção e minimização dos riscos psicossociais decorrentes do trabalho devem ser efetivadas para minimizar o impacto das condições e da organização do trabalho na saúde mental do trabalhador. Essas intervenções devem abranger psicoterapia, tratamento farmacológico e acompanhamento social e psicológico sistemático (BRASIL, 2001).

  • Programas e ações nos quais o trabalhador tenha a possibilidade de discutir as condições e a organização do trabalho e que seja possível a construção de um coletivo, superando o âmbito individual, também são fundamentais.
  • Estudos epidemiológicos dos setores de trabalho também podem auxiliar na construção do nexo entre trabalho e adoecimento e uma intervenção interdisciplinar, principalmente voltada para a escuta qualificada, é fundamental para compreensão sistêmica do problema de sofrimento/adoecimento mental dentro das organizações, o que se torna um desafio para os profissionais de saúde e de gestão de pessoas.

Não buscamos, aqui, esgotar a discussão sobre o tema. Essa breve análise é apenas um convite a novos estudos, novos diálogos, novas possibilidades e principalmente, novos olhares, que tenham como base a solidariedade e a construção de um coletivo de trabalho, pelo menos mais saudável.

Referências

BALLONE, G. J. O que são Transtornos Mentais. PsiqWeb online. 2008.

JARDIM, Sílvia. Depressão e trabalho: ruptura de laço social Rev. bras. Saúde Ocupacional, São Paulo, 36 (123): 84-92, 2011.

CENCI, Cláudia Mara Bosetto. Depressão e Contexto de Trabalho. Aletheia 19, jan./jun. 2004.

GUIMARÃES, Cristiana Marques dos Reis. A depressão no ambiente de trabalho e sua caracterização como doença laboralRevista TRT 6 • DOUTRINA 2013.

TEIXEIRA, Sueli. A depressão no meio ambiente do trabalho e sua caracterização como doença do trabalho. Rev. Trib. Reg. Trab. 3ª Reg., Belo Horizonte, v.46, n.76, p.27-44, jul./dez.2007.

CHAVES, A. C. Doenças relacionadas ao exercício profissional crescem 480%. [s.d.].

SELIGMANN-SILVA, E. et al. M. O mundo contemporâneo do trabalho e a saúde mental do trabalhador. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, v. 35, n. 122, p. 187-191, 2010.

COUTINHO, E. S. F. Fatores Sociodemográficos e Morbidade Psiquiátrica Menor: Homogeneidade e Heterogeneidade de Efeitos. 1995. Tese (Doutorado) – Universidade Federal da Bahia – UFBA. Salvador: 1995

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS – BR (2016). Depressão é tema de campanha da OMS para Dia Mundial da Saúde de 2017.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais – 2° ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

BRASIL. Ministério da Saúde do Brasil. Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil. Doenças relacionadas ao trabalho: manual de procedimentos para os serviços de saúde. Brasília: 2001.

NEFFA, Julio César. Los riesgos psicosociales en el trabajo: contribución a su estudio / 1a ed . – Ciudad Autónoma de Buenos Aires: 2015. Libro digital, PDF

MINISTÉRIO DA FAZENDA – Secretaria de Previdência Social. Saúde e segurança: Estudo apresenta análise sobre benefícios por incapacidade.

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