O texto a seguir é uma sucinta reflexão sobre “Teorias de Gênero”, tema de uma disciplina que cursei no segundo semestre de 2018 no programa de Mestrado em Psicologia da PUC MINAS. A disciplina foi ministrada pela querida Professora Dra. Maria Ignez Costa Moreira e objetivou apresentar a compreensão da emergência, no campo das ciências sociais e humanas, do conceito de gênero e da afirmação de uma epistemologia feminista, bem como as suas implicações nas discussões contemporâneas sobre os processos de subjetivação e constituição do sujeito nas diversas perspectivas do campo psicológico.

Foram debates interessantes, apoiados em referências teóricas atuais e que, para mim, em particular, proporcionaram um rico aprendizado. Confesso que, até então, minha compreensão a respeito da temática “Teorias de Gênero” ainda era tímida ou quase nula, baseada apenas no contato com as discussões apresentadas na grande imprensa, ou seja, uma confusão de ideias, por vezes equivocadas, sobre um assunto que hoje, posso afirmar com segurança, considero relevante e necessário, principalmente para minha prática profissional.

Diante de uma sustentação teórica-metodológica cuidadosamente apresentada durante as aulas, percebi a amplitude que envolve a discussão sobre o assunto. É necessária uma análise mais profunda sobre o tema, para que não sejamos pegos falando “abobrinhas” por aí, como temos observado acontecer, com certa frequência, no cenário político do nosso país. Contudo, diante da minha breve experiência nesse campo, me sinto seguro para propor, ao menos, uma breve reflexão sobre um dos diversos vieses relacionados às Teorias de Gênero, neste caso, suas implicações no contexto de trabalho.

O primeiro paradigma que devemos romper e que nos ajudará pensar fora das caixas tradicionais, nas quais fomos condicionados historicamente e socialmente, é o de que, falar de “gênero” envolve discutir apenas o sexo feminino e as lutas das mulheres, ou as questões referentes às condições sexuais. “Gênero” vai muito além disso, sendo uma categoria que possibilita a discussão das desigualdades e diferenças sociais, sem utilizar de uma colagem de um grupo específico. É claro que não se despreza a visibilidade que o assunto conquistou com os movimentos feministas, entretanto não devemos ignorar que a luta atual é também dos homens, gays, transexuais, negros, pobres, imigrantes e quaisquer outros grupos precarizados e marginalizados.

Sendo assim, “essa categoria de análise, ainda em construção, tem o propósito de desnaturalizar as categorias homem e mulher, a fim de indicar uma rejeição ao determinismo biológico”. (MACÊDO e MACEDO, p.66, 2004). É a possibilidade de desconstruir uma lógica binária, onde prevalece o masculino e o feminino. Para Machado (2000) gênero é:

Uma categoria engendrada para se referir ao caráter fundante da construção cultural das diferenças sexuais, a tal ponto que as definições sociais das diferenças sexuais é que são interpretadas a partir das definições culturais de gênero. Gênero é assim uma categoria classificatória que, em princípio, pode metodologicamente ser o ponto de partida para desvendar as mais diferentes e diversas formas de as sociedades estabelecerem as relações sociais entre os sexos e circunscreverem cosmologicamente a pertinência da classificação de gênero (MACHADO, 2000, p.5).

Mesmo diante da minha imperícia quanto à temática, ainda acredito que o maior desafio encontra-se na capacidade de desconstruirmos nossos preconceitos que, mesmo inconscientes, direcionam e simplificam “gênero” como sendo meramente uma “escolha” binária, assinalada por um X em um formulário. Portanto, corroboro com Butler (2018) ao afirmar:

Minha aposta é que a maioria de nós teve seu gênero estabelecido porque alguém marcou um quadrado em um papel e o enviou, embora em alguns casos, especialmente para aqueles com condições intersexuais, possa ter demorado mais para que o quadrado fosse marcado, ou a marcação possa ter sido apagada algumas vezes, ou a carta possa ter demorado mais para ser enviada (BUTLER, 2018, p.27).

Não diz respeito assim a uma marca inscrita em nossos corpos e que estamos destinados a carregar por toda nossa existência, mas de alguma forma, trata-se de algo que nos foi atribuído por alguém e por isso obrigatoriamente devemos representa-lo (BUTLER, 2018).

Pensando nisso e atuando na área de Gestão de Pessoas, me questiono o quanto minha prática profissional é atravessada por situações que envolvem as questões de gênero. O quanto o contexto de trabalho é cenário para essa prática binária, de um tecido social produtor de corpos identitários. Para isso, basta analisarmos o mercado de trabalho que, por vezes – para não dizer, sempre –, é marcado por significativas e persistentes desigualdades de gênero.

Não se pode ignorar, conforme Abram (2006), que a participação das mulheres no mercado de trabalho, principalmente no caso brasileiro, vem aumentando. Contudo, é visível a forte diferença em relação à taxa de empregabilidade dos homens neste aspecto, tornando-se ainda maior quando comparado à empregabilidade de transexuais, gays, lésbicas e travestis.

O que torna o problema ainda mais preocupante é que, ao mesmo tempo em que questionamos e problematizamos essa construção social, reproduzimos discursos e nos submetemos às regras heteronormativas e conservadoras – o considerado “normal” –, fazendo com que, no contexto de trabalho, haja uma divisão claramente injusta. Tal cisão vai muito além de uma divisão sexual, estando diretamente relacionada a uma submissão do sujeito ao poder hierárquico de gênero, muito bem descrito por Cisne (2015):

A divisão sexual do trabalho, por conseguinte, não pode ser compreendida apenas como uma diferença entre os trabalhos realizados por homens e mulheres e sim como a base das assimetrias e hierarquias contidas nessa divisão, e que se expressam nas desigualdades existentes, dentre outros aspectos, nas carreiras, nas qualificações e nos salários entre os sexos (CISNE, 2015, p. 56). 

Comumente, constata-se práticas de discriminação no trabalho, sejam elas evidentemente corporizadas nas falas, nos atos de assédio moral e sexual, ou veladas pela imposição de uma sexualidade vivida pelos sujeitos com base em um padrão heteronormativo. Ou seja, diz-se de uma igualdade, uma inclusão e um maior número de oportunidades, mas desde que se cumpra o gênero pré-estabelecido, normatizado por “valores tradicionais” e aceito socialmente.

Enfim, penso que, diante de um tema tão complexo e historicamente marcado por tantos progressos e retrocessos, não há que se restringir a discussão ao campo do “certo” e do “errado”, mas sim a urgência de se contribuir com a constituição de espaços para reflexão, diálogo e construção de condições mais justas e iguais, respeitando a liberdade de cada um, indo além das preocupações com os contos de fadas infantis e preconceitos morais sobre a cor da roupa que usamos.

É necessário compreendermos que reconhecer o outro é se reconhecer como igual em uma lógica humana. É estabelecer uma relação, muito além de um respeito maquiado de tolerância. Reconhecer é dar direito ao outro de aparecer. É essencial o fim dessa concepção de “respeito” atrelada ao “você pode, desde que não pareça”.

Referências

ABRAM, Laís. Desigualdades de gênero e raça no mercado de trabalho brasileiro. Cienc. Cult., São Paulo, v. 58, n. 4, p. 40-41, Dez. 2006.

BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Tradução: Fernanda Siqueira Miguens; revisão técnica Carla Rodrigues. 1ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. 226 p.

MACEDO, Goiacira Segurado; MACEDO, Kátia Barbosa. As relações de gênero no contexto organizacional: o discurso de homens e mulheres. Rev. Psicol., Organ. Trab., Florianópolis, v. 4, n. 1, p. 61-90, jun. 2004

MACHADO, Lia Zanotta. Perspectivas em confronto: relações de gênero ou patriarcado contemporâneo? Série Antropológica, n. 284, Brasília, p.2-19, 2000.

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