Tristeza, medo, angústia, solidão… Se esses são alguns dos sentimentos ou sensações que você tem vivenciado no seu dia a dia de trabalho, CUIDADO! Você pode estar sendo vítima de assédio moral.

Durante a minha caminhada acadêmica tenho experimentado de um aprendizado gratificante e rico sobre o mundo do trabalho e suas relações. E uma dessas experiências foi pesquisar e escrever sobre essa violência que tem se tornado cada vez mais presente nas organizações: o Assédio Moral.

Minha tentativa, neste artigo, é apenas contribuir com uma pequena reflexão acerca do tema, com a intenção de que você leitor possa compreender de uma forma mais clara e objetiva do que se trata esse fenômeno.

Desde os primórdios da humanidade o trabalho se faz presente e é parte de nossa condição humana. Por meio dele também nos socializamos e estreitamos relações, criamos e produzimos, transformamos e somos transformados. O trabalho é um dos responsáveis pela formulação de nossa identidade e subjetividade e é capaz de nos proporcionar prazer e satisfação. De outro lado também pode ser fonte de sofrimento, angústia e adoecimento.

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Fonte: Tom Gauld

Em um mercado cada vez mais competitivo e marcado pelo capitalismo, a busca desenfreada por produção e consumo tem proporcionado, para muitos de nós, experiências amargas no ambiente de trabalho. O assédio moral – também conhecido como assédio psicológico – é uma das consequências de algumas formas incoerentes e equivocadas de gestão que têm produzido mal-estar e danos psíquicos a muitos trabalhadores. Então, do que se trata realmente essa violência?

O assédio moral no trabalho é definido pela autora e pesquisadora Marie-France Hirigoyen como “qualquer conduta abusiva (gesto, palavra, comportamento, atitude…) que atente, por sua repetição ou sistematização, contra a dignidade ou integridade psíquica ou física de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de trabalho” (HIRIGOYEN, 2015, p. 17). Assim, podemos compreender que o assédio moral no trabalho é literalmente uma JORNADA de humilhações.

Contudo, é necessário dar atenção para dois elementos importantes na caracterização dessa violência: a frequência e a repetição. Ou seja, trata-se de uma conduta abusiva e intencional que ocorre frequentemente e repetidamente. Isso torna-se relevante para que não haja equívoco entre outros tipos de violências laborais.

O assédio moral no trabalho não deve ser confundido com situações de estresse, desentendimentos, más condições de trabalho, imposições profissionais, etc., mesmo que essas também sejam vias para tal. Precisamos colocar no centro de nossas discussões e reflexões o que realmente está em jogo quando o problema é a intenção de diminuir, humilhar, constranger, desqualificar e demolir psiquicamente um indivíduo ou grupo.

No quadro abaixo é possível compreender os tipos mais comuns de assédio moral:

Quadro 1: Principais tipos de assédio moral no trabalho

 Formas

Descrição

Assédio moral vertical descendente Tipo mais comum de assédio moral nas organizações e está relacionado à hierarquia, ou seja, vem de cima para baixo, cometido pela direção ou supervisão contra o subordinado.
Assédio moral horizontal Caracterizado pela perseguição de colegas do mesmo nível hierárquico.
Assédio moral misto Ocorre quando o assédio vem do superior e passa a ser consentido e partilhado pelo grupo.
Assédio moral ascendente É um tipo mais raro, contudo passível de ocorrer; trata-se do assédio que vem de baixo para cima, ou seja, do empregado para o empregador, ou subordinado para o superior. Comumente encontrado em organizações públicas pelo fato da estabilidade no emprego.

Fonte: Adaptado de Hirigoyen (2015).

O assédio vertical talvez seja o mais conhecido por nós, porém não devemos desconsiderar, por exemplo, que a forma horizontal tem ganhado destaque, principalmente, pelas novas formas de gestão, que possuem, em sua essência, a competição, materializada em metas e desafios muitas vezes abusivos.

Outro cuidado importante é saber distinguir o assédio moral do assédio sexual. É comum que as pessoas tenham dificuldades em descrever o que é assédio moral no trabalho, e na tentativa de construir respostas para a questão, acabam o definindo como um ato de assédio sexual.

Porém, situações de investidas sexuais no ambiente de trabalho, por si só, não devem ser consideradas assédio moral, ainda que, no caso das mulheres, seja frequente o assédio moral vir seguido do assédio sexual. Isso porque quando a trabalhadora nega e repudia uma cantada ou investida sexual maldosa e desrespeitosa de um chefe ou colega, este, diante da negativa da vítima, passa a humilhar e persegui-la, assediando moralmente, com o intuito de denegrir, ameaçar e constranger.

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Como já definido anteriormente, o assédio moral no trabalho é um conjunto de atitudes e comportamentos dirigidos ao indivíduo no ambiente organizacional, com o intuito de perseguir e destruir sua integridade e dignidade.

Diante disso, diferentes são os artifícios utilizados pelo assediador com a intenção de ferir a vítima, causando medo, constrangimento e humilhação. De acordo com Hirigoyen (2015), os métodos podem ser classificados em quatro: isolamento e recusa de comunicação; deterioração proposital das condições de trabalho; atentado contra a dignidade; e a violência verbal, física ou sexual.

Quadro 2: Principais artifícios utilizados pelo assediador para ferir a vítima

Tipos

Descrição

Isolamento A vítima é privada de qualquer tipo de diálogo, é excluída e ignorada do grupo. Fica desprotegida ou incapacitada de constituir qualquer aliança.
Deterioração proposital das condições de trabalho A vítima é exposta a condições de trabalho precárias e inseguras, usurpada de informações importantes para a execução de suas atividades, exigida a cumprir tarefas impossíveis ou metas inalcançáveis.
Atentado contra a dignidade A vítima é desprezada por seus superiores e colegas através de olhares e gestos desprezíveis, é humilhada e suas capacidades profissionais são julgadas a todo instante. É perseguida por motivos religiosos, culturais, políticos e outros.
Violência verbal, física ou sexual A vítima sofre ameaças, gritos ou agressões físicas. É espionada fora do trabalho, tem bens danificados. É assediada ou agredida até mesmo sexualmente.

Fonte: Adaptado de Hirigoyen (2015).

Quando pensamos em quais são as consequências dessa violência, é preciso salientar que todos os envolvidos são afetados.

Do lado da vítima, as marcas são mais fortes e, em diversos casos, irreversíveis. O sofrimento advindo desse mal pode desencadear doenças psicológicas e físicas, além de transtornos afetivos e sociais.

No caso do assediador, os danos à saúde física, psíquica e social também podem ocorrer, além de ter que responder civilmente e ou administrativamente pelos seus atos, atraindo por vezes o estigma de agressor.

Para as organizações, as consequências se concentram, principalmente, nos aspectos financeiros, devido aos processos trabalhistas, além da perda da credibilidade e imagem institucional diante de seus clientes, fornecedores e trabalhadores.

Você deve estar se questionando, então: o que pode ser feito para a prevenir esse fenômeno? Ora, muito pode ser realizado na luta contra essa violência nos ambientes de trabalho, a começar pela busca de conhecimento sobre o assunto, seguida de diálogo e principalmente denúncia.

Enquanto profissionais de saúde ou gestão de pessoas, o nosso trabalho é multidisciplinar e por isso é importante unirmos forças para combater esse mal que em diversas situações é silenciado.

E se você, que está lendo este texto, está vivenciando isso ou conhece alguém que tem sofrido assédio moral no trabalho, procure ajuda, vá até o setor de Recursos Humanos ou Segurança do Trabalho de sua empresa e denuncie. Mas se isso não for suficiente, procure o Sindicato da sua categoria ou o Ministério do Trabalho mais próximo. Precisamos falar sobre o problema e denunciar os abusos de poder, discriminação e assédio sob todas formas!

Gostaria de aprofundar no assunto? Segue algumas indicações de livros e artigos que podem auxiliar um pouco mais na compreensão desse fenômeno:

  • MENDES, Thiago Casemiro Mendes; NASCIMENTO, Marcia Paula. Assédio moral no trabalho: um mal silencioso ou silenciado? 1. ed. Rio de Janeiro: Gramma, 2018. 128 p.
  • VIEIRA, Carlos Eduardo Carrusca. Assédio do moral ao psicossocial: desvendando os enigmas da organização do trabalho. Curitiba: Juruá, 2008. 196 p
  • SOBOLL, Lis Andréa Pereira. Assédio moral/organizacional: uma análise da organização do trabalho. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2008. 238 p.
  • HELOANI, Roberto.Assédio moral: um ensaio sobre a expropriação da dignidade no trabalho. RAE electron. São Paulo, 2004, v.3, n.1, p. 0-0. Jun. 2004.
  • FREITAS, Maria Ester de. Assédio moral e assédio sexual: faces do poder perverso nas organizações.RAE – Revista de Administração de empresas. São Paulo, 2001, v.41, n.2, Abr/Jun, p. 8-19

Referências

HIRIGOYEN, Marie-France. Mal-estar no trabalho: redefinindo o assédio moral. Tradução: Rejane Janowitzer. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015. 352 p.

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