Na área de Higiene, Segurança e Saúde no Trabalho, as abordagens de gestão de riscos ocupacionais tradicionalmente valorizam os aspectos objetivos (químicos, físicos e biológicos), normalmente antecipáveis, em detrimento dos aspectos psicossociais – subjetivos e com maior variabilidade.

Os aspectos objetivos são, comumente, passíveis de serem eliminados ou mantidos sob controle, principalmente a partir da prescrição de comportamentos seguros e fornecimento de equipamentos de segurança. A formulação de normativas e o uso de instrumentos de proteção são formas de controlar e evitar os perigos já conhecidos. Como ressaltam Ruiz e Araújo (2012), pode-se dizer que a identificação e tentativa de eliminação desses riscos objetivos é o ponto de partida para um contínuo processo de melhoria das condições de segurança e saúde no trabalho.

Entretanto, existem aspectos imateriais e imprevistos no trabalho. Existe uma dimensão invisível e variável do trabalho que nunca será contemplada em normas, escapando às tentativas de simplificação e generalização, “pois nem todos os acontecimentos e riscos são antecipáveis, controláveis ou elimináveis, seja no âmbito do trabalho ou naquele da vida” (RUIZ; ARAÚJO, 2012, p.171).

Todo posto de trabalho é dinâmico e contempla um grau de complexidade e variabilidade. As situações reais de trabalho não costumam estar descritas em nenhum manual. Dessa forma, normas escritas por especialistas, distantes do “chão de fábrica”, podem produzir riscos, ao invés de evitá-los. 

Ou seja, para se debater a realidade e produzir um diálogo adequado, é preciso fugir, por um momento, da tradição de controle e objetividade – e de um saber especializado e superior ao dos trabalhadores -, e “observar as relações dinâmicas estabelecidas entre saúde, trabalho e subjetividade” (RUIZ; ARAÚJO, 2012, p.171).

Se o foco da avaliação dos fatores psicossociais se detém sobre o indivíduo ou sobre o ambiente, de forma fragmentada, subestima-se a relação do sujeito com o trabalho. Deve-se levar em conta “o que é colocado em ação, produzido nas e pelas situações de trabalho” (RUIZ; ARAÚJO, 2012, p.173). Afinal, trabalho nunca é mera execução.

Os fatores de risco psicossociais

Os fatores psicossociais presentes no trabalho podem ser tanto favoráveis como de riscos. No entanto, os riscos psicossociais são “aspectos do desenho do trabalho, organização e gerenciamento do trabalho e seus contextos sociais e ambientais, que têm o potencial de motivar danos psicológicos e sociais ou físicos” (GLINA, 2010, p.15). Em síntese, é quando um fator psicossocial daquela atividade torna-se – ou pode se tornar – nociva a quem a executa.

São alguns exemplos: carga e ritmo de trabalho excessivos, comunicações empobrecidas, falta de apoio, falta de participação nas decisões, tarefas desagradáveis ou sem sentido, conflitos interpessoais e conflitos entre exigências domésticas e profissionais (JACINTO; TOLFO, 2017). Podemos citar também alto grau de responsabilidade, pressão para cumprimento de prazos, excesso de competitividade, falta de reconhecimento e tarefas com grande exigência intelectual e/ou emocional.

Armandinho Trabalho

Ainda para esses autores, os riscos psicossociais “são riscos para a saúde, criados pelo trabalho por meio de mecanismos sociais e psíquicos, como as condições de trabalho, fatores organizacionais e relacionais, manifestando-se na saúde mental, social e física” (p.41).

Tendo em vista que, entre o trabalho prescrito e o trabalho real, existe uma atividade do sujeito que mobiliza sua personalidade e é mediada pelo coletivo e pelo objeto de trabalho, sempre existirá um vazio entre as normas antecedentes e a realidade do trabalho, que precisaremos preencher. Afinal, o trabalho é “por definição imprevisível. Isso quer dizer que não é e não pode ser previsto” (TRINQUET, 2010, p.97).

O ser humano é um ser ativo. Ou seja, a vida de uma pessoa está longe de ser inerte, mas sim ‘reação’ frente às condições que lhe são impostas (CANGUILHEM, 2009). Nós não somos, assim, seres passivos às intervenções do mundo exterior e de outras pessoas.

“O humano (e sua saúde), nessa perspectiva, não apenas se submete, sofre os impactos e influências, mas, principalmente, tem como importante característica sua atividade, sua capacidade de ação, de criar e recriar seu meio, de ser normativo, recentrando o meio heterodeterminado como seu, mesmo que parcialmente ou no infinitesimal” (RUIZ; ARAÚJO, 2012, p.175).

Assim, na vida e no trabalho, “somos todos, como seres humanos, atormentados por debates internos, ‘debates de normas’ mais ou menos visíveis aos outros e a nós mesmos, mais ou menos invisíveis também” (SCHWARTZ, 2011, p.132).

Cabe lembrar que “trabalhar jamais é, simplesmente, aplicar, mas se adaptar sempre às variabilidades organizacionais, materiais, ambientais e humanas, em tempo real” (TRINQUET, 2010, p.107).

Utilizamos das nossas experiências e características individuais, em interação com o conhecimento coletivo, para gerir e fazer o trabalho que precisa ser feito. Isso implica discutir valores, critérios técnicos e éticos, e até o que se considera um trabalho bem feito ou não. Dessa forma, trabalhar sempre implica algum nível de tensão e conflito.

Porque isso é importante?

Porque essa dimensão subjetiva do trabalho sempre existirá. A diferença é que o debate sobre o que fazer, como fazer, porque fazer, quando e para que fazer pode permanecer apenas interno – isolado no próprio indivíduo – ou clandestino – produz mudanças na prática, porém de forma oculta -, ao invés de se tornar público – produzindo conhecimento e mobilizando os saberes entre gestão e execução (RUIZ; ARAÚJO, 2012).

A identificação e a eliminação – ou diminuição – dos riscos objetivos é essencial e uma forma de proteger os trabalhadores. No entanto, considerar os fatores humanos e subjetivos é fundamental para se chegar aos riscos psicossociais do trabalho, estes de difícil medida e objetivação. E isso implica ampliar as capacidades de análise e gestão coletiva do próprio trabalho. Ou seja, ouvir e estimular a fala de quem realmente realiza a atividade.

Desconsiderar essa dimensão é desconsiderar o papel da cooperação, dos acordos implícitos, das pequenas transgressões, da criatividade e da variabilidade da atividade e do ser humano. É também um caminho perigoso para produzir isolamento, apatia, mal-estar e acidentes de trabalho.

Devemos adotar então uma postura compreensiva na prevenção dos riscos, sejam eles objetivos ou subjetivos. Isso permite evitar focar apenas no que não deu certo – erros, acidentes -, mas também nas práticas exitosas. Portanto, mobilizar a participação contínua dos trabalhadores na identificação, prevenção e gestão dos riscos psicossociais poderá contribuir com “o desenvolvimento de autonomia e de recursos (individuais e coletivos) para subsidiar as escolhas e a valorização do diálogo entre os saberes como exercício ético-político” (RUIZ; ARAÚJO, 2012, p.179).

É necessário reconhecer, perceber, identificar e diagnosticar os riscos psicossociais, para poder intervir nas situações de trabalho e prevenir os seus efeitos nocivos. Afinal, considerar a dimensão subjetiva do trabalho é essencial para que possamos conciliar segurança, saúde, qualidade de vida, produtividade e qualidade.

Em muitos contextos, isso pode ser difícil ou parecer impossível, afinal sempre teremos relações de poder intrincadas nas instituições e interesses conflitantes (patrão-empregado). Além disso, elementos muito concretos como a ameaça do desemprego, a fragmentação das tarefas, a “uberização” dos serviços e relações de trabalho cada vez mais precarizadas – para não falar das revoluções trazidas com as inovações tecnológicas – tornam essa tarefa ainda mais complicada.

Contudo, os riscos psicossociais existem. Queira você ou não. E eles adoecem. E até matam. Depende do nosso dever ético-político-social-mercadológico-ideológico-teórico levá-los em conta ou não.

Referências

CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. 6 ed. rev. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

GLINA, D. Modelos teóricos de estresse e estresse no trabalho e repercussões na saúde do trabalhador. In: GLINA, D.; ROCHA, L. E. (Org.). Saúde mental no trabalho: da teoria à prática. São Paulo: Roca, 2010. p. 3-30.

JACINTO, Aline; TOLFO, Suzana da Rosa. Riscos psicossociais no trabalho: conceitos, variáveis e instrumentos de pesquisa. Perspectivas em Psicologia, Uberlândia, vol. 21, n. 1, pp. 39 – 55, Jan/Jun, 2017.

RUIZ, Valéria Salek; ARAUJO, André Luis Lima de. Saúde e segurança e a subjetividade no trabalho: os riscos psicossociais. Rev. bras. saúde ocup., São Paulo, v. 37, n. 125, p. 170-180, Junho, 2012.

SCHWARTZ, Yves. Manifesto por um ergoengajamento. In: BENDASSOLLI, Pedro Fernando; SOBOLL, Lis Andrea (Org.), Clínicas do trabalho: novas perspectivas para a compreensão do trabalho na atualidade, p. 132-166. São Paulo: Atlas, 2011.

TRINQUET, Pierre. Trabalho e educação: o método ergológico. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, número especial, p. 93-113, ago.2010. Disponível em: <https://bit.ly/2EEriri> Acesso em: 05 jan. 2018.