Vinte e cinco de janeiro de 2019, converso por WhatsApp, com um Professor que está no Brasil. Quando, já não olhava mais para o celular, ouço o barulho do aviso sonoro de mensagem recebida. Olho. A mensagem era ele me falando sobre um rompimento de mais uma barragem de rejeitos de minério em Minas Gerais. Minha primeira reação foi não acreditar. Assim, ele me envia uma reportagem com o título: “Rompimento de barragem em Brumadinho mobiliza bombeiros”. Imediatamente, procuro sobre o assunto na internet. Ainda não havia muitas notícias sobre o assunto. Era cedo para saber o que realmente tinha ocorrido. A tragédia tinha acabado de acontecer.

Naquele momento, lembro-me de um lugar mágico, quase que inacreditável, que eu e meu marido costumávamos frequentar, em Brumadinho. Era uma pousada tranquila, no meio da natureza. Costumávamos passar nosso aniversário de casamento lá. Começo a me lembrar do último final de semana em que estivemos na pousada. O caminho era uma estrada deserta, só havia árvores. Quase não cruzamos com carro naquele dia. Eu sempre abro a janela para sentir o cheiro do mato, ritual de quem gosta de cheiros. A madeira e a terra molhada me enchem de vida. Coloco a cabeça para fora da janela, sinto o ar batendo em meu rosto, gelado. Fecho os olhos e respiro fundo. O cheiro nascia no meio daquela estrada vazia. A vida entra em mim, me renovando. Coloco a cabeça para dentro do carro e, como um balsamo, meu pequeno ritual me transborda de alegria. Estava em paz.

Chegamos à pousada. Não havia vizinhos, pelo menos que eu percebesse. Tinha uma construção linda de vidro e madeira. Não se escutava nada ali, somente o som do vento, que copulava com as folhas das árvores. Pássaros, haviam muitos, cada um cantando individualmente sua melodia, coletivamente a orquestra se fazia ouvir. Descemos do carro e uma senhora vem nos receber. Ela realiza nosso check-in, carinhosamente nos leva ao nosso quarto, sabia que comemorávamos mais um ano juntos.

No caminho do quarto vemos o quanto era lindo o lugar. Todos os objetos conversavam com a natureza. Eram quadros pintados na madeira, pedras transformadas em caminhos, árvores que não cederam espaço à construção, permanecendo firmes no local em que nasceram. Um dos quadros, na madeira, expressava a fé, e o amor.

Mais abaixo, tinha uma piscina, uma grande piscina azul. Um quiosque fazia a sombra, protegendo-nos do sol forte, apesar da brisa fria de Brumadinho naquela época do ano. Mais à frente, um lago com uma pequena ponte completava a paisagem. Haviam sapos no lago. Dessa parte, particularmente, não gostei. Na manhã seguinte, um sapo sorrateiro nadava na piscina. Era sinal que a natureza estava ali, presente, viva. Até me afeiçoei com o pequeno sapinho nadando na piscina.

O gramado era imenso. Lembro de ter me deitado nele. Ele estava úmido, frio, tinha cheiro de terra molhada. Os pernilongos eram muitos por ali. Uma senhora, com cara de mãe, chega perto de mim e me entrega uma loção, feita por eles para espantar os pequenos hospedes voadores. Não consigo me lembrar do cheiro da loção, mas lembro que era bom, lembro de ter passado no corpo inteiro, feliz.

Fiquei deitada, ao sol, o dia inteiro. Olho para o lado e vejo meu marido fotografando algo que via no jardim. Ele, curiosamente, olhava para dentro das folhas. Vi que ele estava impressionado. Às vezes, ele sorria, parecia uma criança animada. Foi bonito ver ele ali. Parecia feliz. Cheguei perto para ver o que era, tratava-se de um casulo. Há muito tempo não via um casulo daqueles. Sairia de lá uma borboleta, uma vida, a natureza retratada em uma pequena espécie voadora.

À noite fomos até o restaurante da pousada. Sabíamos que lá tinha uma das melhores comidas da região. O restaurante era, cuidadosamente, arrumado. As mesas, de madeira rústica. Peço um peixe. Na chegada do prato, me assusto com sua decoração. O sabor era único. O chefe sabia disso. O jantar durou mais de três horas, sendo regado pelo bom vinho, oferecido pelo local. Apesar do requinte, havia simplicidade ali. Conversamos por um longo período com o senhor que servia as mesas.  

Depois, saímos e ficamos observando o céu por um tempo, até que a brisa fria nos expulsasse dali. O céu estava estrelado. As estrelas brilhavam na noite pouco iluminada. A lua reinava à parte. Foi um final de semana especial.

Depois de toda essa lembrança, sigo o dia normalmente, ainda sem saber direito o que estava acontecendo no Brasil. À noite, começo a ter uma noção da tragédia. Fico, realmente, triste. Choro escondido, às vezes. Lembro-me das áreas de risco geológico, das famílias, crianças, vidas perdidas, com que trabalhei em 2002/2003.

De repente, meu marido me liga e pergunta: “Viu o que aconteceu com a pousada Nova Estância?” Eu não tinha visto. Imediatamente pego meu celular e procuro na internet. A pousada tinha sido levada pelo mar de lama da Vale. Já estava triste pelas mortes, muito triste, mas, naquele momento a tragédia se aproximou de mim, se fez presente, concreta em minha vida.

Não havia mais a estrada deserta que nos levou até à pousada, somente lama.

Não havia mais o cheiro do mato, o cheiro da lama deveria estar forte agora. A madeira e a terra molhada já não poderiam encher ninguém de vida, elas sumiram na lama.  

A construção linda de vidro e madeira, despareceu, a lama ficou.

O silêncio agora é maior, não se escuta mais os pássaros, foram silenciados pela lama.

A lama separou o vento das árvores, não existe mais amor entre eles.

O quarto de amor se desfez, ficou a lembrança, que também foi coberta por lama.

Os objetos da pousada que conversavam com a natureza, são lama agora.

Os quadros se foram, ficou a fé, ainda que suja de lama.

A piscina não é mais azul, é apenas lama.

Os sapos sorrateiros foram cobertos por barros, morreram presos na lama.

O imenso gramado desapareceu.

Não há mais pratos no restaurante, nem vinhos, nem a boa comida. Eles foram devorados pela lama.

As pessoas… infelizmente, elas também se foram. Vidas desperdiçadas na lama.

O legado da lama acabou com tudo, até os vivos, sobreviventes da lama, estão cobertos de lama. Eu me cubro de lama agora, aos prantos. Somo todos “lama” nesse momento. Talvez aquela borboleta do casulo ainda esteja viva. Ela tinha asas, podia voar… que sorte a dela. Já as pessoas não, confiavam na tranquilidade da natureza. Eu confiava. Esquecemos apenas que a ganância, que destruiu a natureza, podia nos destruir. Nós não conseguimos voar.

Dedico esse texto a todas as pessoas que, de forma direta ou indireta, estão envolvidos nessa tragédia. Dedico essas palavras a todas as vítimas dessa tragédia imunda, vidas que foram desperdiçadas na lama, a todos os familiares. Dedico esse texto a cada um de nós, a mim, a você que o lê agora. Por sorte, não estávamos lá, mas, de toda forma, estamos todos cobertos com a lama da Vale. Estamos todos cobertos com as lágrimas que a lama não vai conseguir abafar.

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