Esse texto, como o próprio título sugere, fala sobre a possibilidade do “descoisificar-se”. Segundo o dicionário, descoisificar significa “deixar de ser coisa”. Gostaria de pedir uma licença literária para ampliar esse significado, que englobará, aqui, o “deixar de ter coisas”.

O desejo em escrever sobre isso surge de duas experiências distintas, mas convergentes e singulares. A primeira, se refere à minha vivência minimalista, potencializada em meu processo de imersão. A segunda, à uma experiência com minha filha, vivida em seu aniversário de sete anos.

Estou em Coimbra há quase três meses, imersa num pequeno grande espaço, minimamente organizado e bem planejado. Moro em um cômodo de quarenta metros quadrados, cozinha e quarto conjugados, separados, apenas, por uma pequena mesa branca e duas cadeiras pretas. Tenho, exatamente, um fogão de duas bocas, duas panelas, dois pratos, dois copos, duas taças, poucas colheres e garfos, dois panos de pratos, duas toalhas e dois lençóis. Minha geladeira é um frigobar. Uma cômoda acomoda, acolhedoramente, em apenas uma gaveta, minhas roupas. Em outras duas, ficam meus documentos e livros. Meu sapato fica em meu pé, mas tenho uma pantufa para andar dentro de casa.

É um lugar extremamente pequeno, mas que se faz grande ao acomodar todas as minhas coisas. Grande em me acomodar. Por ser uma casa pequena, está sempre limpa. Cozinho todos os dias, não demorando quinze minutos para me livrar das louças sujas que se espalham em uma bancada de uns trinta centímetros.

Nunca mais me deparei com aquela farinha de trigo que se perdeu na prateleira do armário, nem com o biscoito fora da validade, que vai para o lixo, intacto. Não encontrei mais aquela lata de atum que eu não sabia que ela ainda existia no armário.

Da mesma forma, não me surpreendo com roupas velhas, mas novas, no fundo da gaveta, nem com o encontro com aquele par de sapato que está no canto do armário, empoeirado. Perdi, realmente, a surpresa com coisas que comprei, e não sabiam que elas existiam.

Minimamente, hoje sei exatamente o que tenho e onde tudo se encontra. Curiosamente, ao não ter espaço para as coisas, o espaço se ampliou para mim, assim como o cuidado. Tenho tudo que preciso, e descobri que não preciso de muito. Realmente, não preciso.

Olhando para minha vida hoje e refletindo sobre a leveza que isso tem me trazido, comecei a pensar por quê ter tantas coisas. Poderia, aqui, dar uma explicação psicológica, baseada na falta e na necessidade de pertencimento e reconhecimento. Poderia expor uma visão sociológica e econômica sobre o consumismo e o lugar da mercadoria na sociedade do capital. Poderia, ainda, falar sobre a visão filosófica de Karl Marx, exposta nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, sobre o “bestial se tornar humano e o humano bestial”, mas prefiro falar, apenas, sobre as possibilidades que o “não ter” me trouxe, experiência singular e transcendente de descoisificar-me. Descoisificando-me tenho vivenciado coisas fantásticas, inclusive a possibilidade da escrita, o que me trouxe memória, reflexão e mudança.

Pensando nessa experiência, descoisificante, libertadora, em morar em um lugar tão pequeno, me lembrei de um outro fato que aconteceu no aniversário de sete anos minha filha, segundo momento em que o “deixar de ser e de ter coisas”, foi libertador.

Crianças, vocês sabem como são, adoram ganhar presentes. Mas, ao mesmo tempo, todo aniversário gera uma enorme frustração: a frustração em não ganhar o que se quer, em não ganhar “aquela coisa”.

Quem nunca ficou frustrado porque o marido não mandou aquele buquê enorme de flores (de preferência para o trabalho, né?), ou não recebeu aquele anel de noivado, ou não ganhou aquela maquiagem que queria, ou aquela calça de marca? Quem nunca se frustrou com um presente? Acho que todos nós, pelo menos uma vez na vida, já teve essa sensação.

Mas, esse é um sentimento extremamente contraditório, já pensaram sobre isso? Por que se frustrar ao receber um presente, sendo que o presente é, teoricamente, escolhido pelo outro, como uma forma de se fazer presente em nossas vidas? Sim, damos presentes para nos fazermos presentes. Esse é o sentido antropológico e ontológico do presentear. Mais uma coisa que se perde no mundo capitalista.

Nem vou prolongar, aqui, a discussão sobre os amigos-ocultos, ou, como alguns já chamam, inimigos-ocultos.  Para mim o nome deveria ser “amigo, que compra o presente que eu quero, num valor acordado por todos e que são trocados em uma mesa de um bar”. Está bem, esse nome não daria porque é grande, concordo. Mas, somos seres tão estranhos que passamos a definir os valores dos presentes, ou melhor (no caso, pior), todos darem o mesmo presente, tipo “aquela barra de chocolate”, para não corrermos o risco da frustração, ou da raiva.

Qual é o sentido disso, então? Se eu sei que vou ganhar uma barra de chocolate amargo e dar uma barra de chocolate branco, por que eu não compro uma barra de chocolate amargo e fico feliz? Por que cada um não compra uma coisa para si próprio e vai para um bar comemorar essa coisa? Garanto que seria muito mais saudável, cada um comemorando seu próprio presente. Além disso, os presentes seriam bem melhores. Pronto, já entrei na discussão do amigo secreto, me desculpem. Mas, isso é um bom exemplo para expressar a prisão que o desejo pelas coisas nos coloca. Somos presos às coisas. Clichê? Sim, mas realmente somos.

Mas, voltando ao aniversário de sete anos de minha filha, o fato é que todo ano é a mesma coisa: frustração e um monte de coisas inúteis no armário. Prisão.

Refletindo sobre isso, ao preparar os convites do aniversário, que seria comemorado na escola, dei a ela uma sugestão:

– Agnes, por que você não coloca no convite que você não quer presentes. Por que você não pede brinquedos usados para doar para crianças que realmente precisam?

De repente, uma bomba caiu em minha casa. O pedido soou muito mais desconfortante do que eu poderia imaginar. Pude sentir a respiração dela tensionada, o olhar nervoso, a boca trêmula de raiva. Ela andava de um lado para o outro da casa, sem parar. Agitada. Até que, soltou uma frase:

– Como assim eu não vou ganhar presente?

Diante dessa frase, eu pensei: normal, criança gosta mesmo de presentes. Então, eu respondi:

– Filha, é apenas uma sugestão. E só porque você tem tanta coisa, nem cabe em seu armário mais coisas, para que ganhar se você pode doar? Mas isso é apenas uma sugestão. Você não precisa fazer.

Quase chorando, ela me respondeu:

– Mas agora eu vou me sentir culpada se não fizer. 

– De jeito nenhum. Respondi, sinceramente, a ela. Você não precisa fazer isso.  

Claro que eu sabia que incomodaria com minha sugestão, mas não sabia que seria tanto. Apesar do desconforto, gostei do incomodo que minha pergunta causou. Penso ser essa uma das tarefas dos pais: fazer os filhos decidirem, através do aprendizado da escolha, que nem sempre é fácil. Incomodar é preciso.

Depois de muito pensar, ela se decidiu. A escolha tinha sido tensa, cheia de conflitos e, um pouco, raivosa.

– Vou pedir brinquedos usados para doação. Disse ela, com uma cara que esperava uma festa de minha parte.

Eu, agi naturalmente, sem festejar pelo lógico, respondo:  

– Que bom, escolha sensata! Vamos jantar?

Ela me olha com um olhar de decepção, esperava algo mais vultuoso. Eu, não poderia comemorar o óbvio. 

No dia do aniversário, ela foi para a aula, animada. Como sempre, a mochila, enorme, batia em seus joelhos enquanto ela corria com os braços abertos e a mão balançante, para entrar na escola. Ela estava feliz, apesar de saber que não ganharia presentes. Pelo menos não físicos, mas subjetivos. Não haveria frustrações naquele dia, pois ela não esperava nada. “Aquela coisa” foi substituída pelo “estar ali”.  

Ao meio dia, estava eu na porta da escola para buscá-la. Esperei, esperei, esperei. Ela não saía do colégio. Entrei, um pouco preocupada. Ao chegar à sala, a professora e ela me esperavam à porta, com um sorriso enorme no rosto. Ela, além do sorriso, pulava com suas mãozinhas balançantes.  

– Estávamos a sua espera. Não sei como você vai levar todas essas coisas? Disse a professora, entusiasmada.

Ao entrar, me deparo com um dos cantos da sala lotado de sacolas. Eram muitos e muitos brinquedos. As sacolas se misturavam aos brinquedos, que se perdiam nas sacolas. Olho para a professora com os olhos espantados e cheios de lágrimas, ela, olhava para mim da mesma maneira. Choramos em silencio, mesmo sem deixar a lágrima cair. Enquanto isso, Agnes continuava pulando com as mãos balançantes, como faz até hoje em momentos de empolgação, um jeito bem Agnes de demostrar a felicidade.

Naquele ano, ela não entrou no carro frustrada com os brinquedos que ganhou, mas com um grande sorriso no rosto. Ela havia ganhado muito mais do que coisas. Eu também. Penso que a professora e os colegas também, assim como a família de cada um que teve a chance de escolher algo para doar. Eram coisas que, provavelmente, estavam escondidas no fundo da gaveta, ou empoeiradas no canto do armário.

Durante a semana, os presentes não paravam de chegar. Era bonito ver ela sorrindo, chegando em casa com uma sacola de brinquedos usados na mão. Ela realmente se encantou com a possibilidade do “não ter”. Libertou-se, descoisificou-se. Foi feliz, naquele momento.

Deixo essas duas experiências como forma de reflexão sobre o coisificar-se e o descoisificar-se. São duas possibilidades de vivenciarmos alguns momentos, como o Natal, por exemplo. Essas duas possibilidades podem nos aprisionar no “aquela coisa”, nunca alcançada, ou nos libertar diante a possibilidade de sentir o outro como presente. A presença pode ser um grande presente. A verdadeira presença, o verdadeiro presente.   

Bom, acho que é isso. Desejo a todos um ótimo Natal e um ano novo repleto de presenças. DESCOISIFIQUEM-SE!

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