Nesse meu processo de imersão tenho aprendido muito, como compartilho com vocês aqui no blog. Meu olhar se abriu a novas oportunidades, é sobre isso que desejo falar hoje. Quero demonstrar as infinitas possibilidades que se apresentam no caminhar da vida,verdadeiras “paredes abertas”. Não garanto um texto profundo e reflexivo, mas busco dividir com vocês minha conexão, experiência transcendente, com um azulejo português.

Essa semana, uma coisa, no caminho, chamou a atenção de meu olhar: um azulejo na parede de uma casa. Eu andava pela rua, despretensiosa, quando minha visão se deparou com ele. Era uma casa velha (ou cheia de histórias), e, no meio da parede, ao lado da janela, lá estava ele, pulando a frente de meus olhos. O engraçado é que sempre passava por ali, mas nunca o tinha visto.

Ele se destacava no meio da parede: lindo, delicado, singelo, e, ao mesmo tempo, forte e absoluto. Reinava sozinho. Por um segundo, me perguntei como nunca o tinha percebido. No segundo seguinte, quis saber há quanto tempo ele estava ali, o que ele já havia passado, por quantas tempestades, ventos, secas, quanto sol ele já havia recebido. A parede estava desgastada, ele, não.

Imediatamente, eu tive a curiosidade em conhecer a histórias dos azulejos portugueses. Entro no Google à procura do que eles representam. Leio que “em muitos deles está condensada a história de milhares de lusitanos, tanto a daqueles que dão vida a essas representações, como aqueles que se encontram honrados e homenageados. As paredes nacionais, ao contrário de tantas outras, não se fecham, abrindo portais para outras dimensões temporais, para tempos remotos, onde a recordação ainda pulsa bem na proximidade dos que caminham.

Ainda lia o texto, caminhando pela rua e um pouco impressionada com a leitura, quando levanto a cabeça e eis que surge em minha visão um lindo azulejo azul. Era a imagem de uma santa. Como o outro, eu não o tinha reparado antes.

Foi quando, de repente, se abriu um portal para uma outra dimensão temporal, para um tempo remoto, cheio de recordações, ainda que elas estivessem silenciadas dentro de mim. Nunca uma leitura no Google tinha feito tanto sentido, tão rapidamente. Foi uma explosão de memórias. O azulejo azul na parede foi minha “parede aberta”, parede que não limita, expande. Imergi. E nesse mergulho, encontrei meu passado.

Fui transportada para minha casa. O azul do azulejo se misturou a um outro azul, também conhecido por mim. Era o azul de um oratório, onde fica uma santa, igual à que estava na parede. Poderia também ser o azul do manto da santa, não tenho certeza. Sei que os azuis se misturavam em minha cabeça.

Naquele momento, foram feitas diversas conexões: azulejo, imagem, azul, oratório, gessos brancos, goma-laca, muitas tintas, mãos sujas de tintas, uma cadeira em um alpendre, o cheiro do betume, panos sujos de tinta, uma mesa bagunçada, um cigarro e um olhar profundamente triste. Uma mulher estourou em meu pensamento. Ela estava lá, quase carregando a imagem em seu colo, segurando-a firmemente com uma das mãos. As pernas estavam cruzadas.

Os pés balançavam uma sandália havaiana preta. A imagem em sua mão ainda se encontrava com partes cobertas por goma-laca, crua. O pincel deslizava (ou dançava) no gesso, que era coberto por tinta a óleo azul. O cigarro repousado no canto da boca e um terço de madeira no pescoço. Eu estava lá, sentada ao chão, com meus quatorze anos de idade (mais ou menos), observando fixamente aquele trabalho manual, uma verdadeira obra de arte. Já me encantava pelo trabalho naquela época. Lembro-me de pensar como era possível alguém ficar horas e horas na mesma posição, fazendo a mesma coisa.

A cena não mudava, somente o cigarro se desfazia no tempo. Esta cena permaneceu intacta em minha memória. Era aquela santa, eu a conhecia. Sentei na calçada e fiquei ali por alguns minutos, somente respirando. Experiência transcendente.

A imagem de minha casa havia sido um presente de minha mãe, foi pintada por ela, exatamente como descrevi. Viajei nessa lembrança, emocionada. Fui transportada para um tempo de amor e de fé, representado na imagem de gesso que eu tenho. Tempo relembrado e rememorado em um azulejo português na parede de uma casa. Por vezes, eu passei por ali, não o vi. Que sorte eu tive em vê-lo aquele dia, que mundo de sentimentos ele me trouxe.

Diante disso, me perguntei sobre as diversas paredes, fechadas e abertas, que se colocam diante de nós. São diversas possibilidades, múltiplas interpretações. O engraçado é que, depois disso, saí pela cidade fotografando as paredes abertas que encontrava, mesmo não me conectando a elas, mesmo elas não me levando a lugar nenhum, pelo menos não com a mesma intensidade.

Azulejos portugueses de Coimbra

De alguma forma, os azulejos lusitanos me capturaram, me conectaram à cultura, à tradição de Portugal, e, por incrível que pareça, me conectaram a minha história, e diminuíram uma distância eterna, que provavelmente a nomeamos de saudade. Eles, também, me representaram.

O mais surpreendente foi que, depois disso, revendo minhas fotografias, descobri que já havia me deparado com um azulejo com a mesma imagem, em uma parede na cidade de Guimarães, mas, naquele momento, a parede estava fechada, ou, talvez, eu estivesse. Pode ser que o Google, através da leitura, tenha me tocado ao falar sobre “paredes que não se fecham”. Anteriormente, ela não fez nenhum sentido, mas o sentido estava lá, ainda que oculto.

Bem, esse texto não me parece fazer muito sentido (apesar de dizer sobre o meu sentir). E acho que realmente não faz sentido algum. Mas, talvez, pensar sobre paredes abertas e fechadas possa fazer sentido a alguém, possa nos fazer imergir no sentido oculto das coisas, na sutileza das subjetividades, nas pequenas grandes coisas que perdemos ou encontramos no caminho, e que, muitas vezes, estão dentro de nós. Vivas.

Talvez o desafio seja encontrar um sentido em uma parede fechada, ou, às vezes, reconhecer o sentido em uma parede aberta, em um azulejo aparentemente sem sentido. O desafio pode ser olhar com olhos de “querer ver”, “querer sentir”, “poder se entregar”, “olhar para dentro de si”.

Não sei como terminar esse texto, mesmo porque eu não queria que ele terminasse. Acho até que posso dizer que ele não tem fim, são memórias. Mas decidi terminá-lo repentinamente, enquanto sigo imersa em minhas paredes, fechadas e abertas.

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